14/09/2026 - 10:54 | Atualizada em 14/09/2026 - 15:07
Mino Pedrosa
Brasília conhece Daniel Vorcaro, conhece os Bolsonaro e agora começa a conhecer melhor um personagem que aparece no meio deles quando o assunto é o filme Dark Horse e, principalmente, o dinheiro: Thiago Miranda. Nos documentos e diálogos, ele surge como interlocutor entre o banqueiro e Flávio Bolsonaro e como participante da captação dos recursos, pela qual teria sido oferecida a ele uma comissão de 3%.
Depois de cumprir mandados de busca e apreensão na residência e em endereços relacionados a Thiago Miranda, a Polícia Federal recolheu documentos, equipamentos eletrônicos e material relacionado a estruturas empresariais. Entre os elementos que merecem especial atenção estão empresas abertas por Miranda nos Estados Unidos. É nesse acervo que pode estar o capítulo mais importante dessa história: o verdadeiro making of de Dark Horse. Não o que aconteceu diante das câmeras, mas nos bastidores dos milhões de dólares. Por onde passou o dinheiro destinado ao filme, quem recebeu, quem intermediou e quanto efetivamente chegou à produção nos Estados Unidos.
Os diálogos extraídos de aparelhos apreendidos pela Polícia Federal e incorporados aos autos mostram que Miranda não estava na arquibancada. Ele aparece marcando encontros, aproximando Vorcaro de Flávio Bolsonaro, recebendo documentos, transmitindo instruções e tratando diretamente do projeto cinematográfico.
“Precisamos te encontrar, eu e Flávio Bolsonaro, sem falta”, escreve Thiago a Vorcaro. Depois explica: “Tenho dois assuntos: o filme do presidente e o SBT”. Em outra conversa, informa que pediu a Mário Frias que centralizasse com ele a documentação do projeto. É nesse ambiente que aparece uma das mensagens mais intrigantes atribuídas ao banqueiro: “Tem que mandar 4mm USD agora”.
Quatro milhões de dólares.
A cifra muda o tamanho da história. O que interessa agora é descobrir quanto efetivamente saiu, de onde saiu, por quais contas e empresas passou e quanto chegou, de fato, à produtora. A comissão de 3% oferecida a Miranda pela captação dos recursos acrescenta outra peça importante: se houve captação e pagamento da comissão, os registros bancários podem mostrar origem, percurso e destino do dinheiro.
É aí que Thiago Miranda ganha outra dimensão. A busca e apreensão autorizada pelo ministro André Mendonça permitiu à Polícia Federal alcançar contratos, documentos bancários, registros contábeis, ordens de pagamento, instrumentos societários e equipamentos eletrônicos. Esse material pode oferecer justamente o que falta para fechar o quebra-cabeça: a trilha financeira do Dark Horse.
Há um ponto ainda mais sensível: as estruturas empresariais abertas por Thiago Miranda no exterior. Se alguma delas foi utilizada para receber, converter, intermediar ou transferir recursos relacionados ao filme, basta confrontar datas de abertura, contratos, contas bancárias, operações cambiais, transferências e beneficiários para saber se o dinheiro passou por essas empresas antes de chegar aos Estados Unidos.
O papel de Miranda em movimentações financeiras ligadas aos interesses de Vorcaro não é mera conjectura. Em outra frente da investigação, consta que Thiago confirmou realizar pagamentos a influenciadores utilizando parcela de recursos provenientes da SUPER Empreendimentos e Participações, empresa de Daniel Vorcaro. A autoridade policial também o apontou como principal articulador do chamado “Projeto DV”.
Thiago Miranda estava no ponto de encontro entre Vorcaro, os Bolsonaro, o filme e os recursos. Agora, documentos apreendidos pela Polícia Federal podem ajudar a estabelecer até onde foi sua participação financeira e qual papel desempenharam suas estruturas empresariais nos Estados Unidos.
A PF pode ter nas mãos o making of que realmente interessa nessa história: não o das câmeras, mas o caminho dos milhões de dólares.
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