03/09/2026 - 19:31 | Atualizada em 05/09/2026 - 12:30
Cícero Henrique
Um extrato bancário obtido pelo ex-governador Pedro Taques (PSB), autor de denúncias relacionadas ao chamado Escândalo da Oi, lança novas luzes sobre movimentações financeiras envolvendo empresas ligadas à família do ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes (União).
Segundo o documento apresentado por Taques, a Sollo Participações, holding da família de Mauro Mendes, recebeu R$ 13,2 milhões em um período no qual o governo de Mato Grosso realizava pagamentos relacionados ao acordo de R$ 308 milhões destinados aos fundos de investimento Lotte Word e Royal Capital.
Mauro Mendes e integrantes de sua família são investigados na Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal em 6 de agosto deste ano. Conforme a investigação citada por Taques, o esquema teria utilizado chamados “fundos em cascata” para ocultar a origem dos recursos relacionados aos R$ 308 milhões pagos pelo governo estadual aos fundos de investimento.
O ponto considerado mais sensível pelo ex-governador está na movimentação entre o Venture Finance Fundo de Investimento, anteriormente denominado 5 M Fundo de Investimento, e a Minerbras Mineração Ltda., empresa do filho de Mauro Mendes.
De acordo com o extrato apresentado, a Minerbras recebeu R$ 14 milhões do Venture Finance. No dia seguinte, R$ 13,2 milhões foram transferidos para a Sollo Participações, holding da família de Mauro Mendes.
O documento, segundo Taques, registra não apenas os valores, mas também data, agência e horário das operações.
Fundo recebeu aporte milionário antes de repassar dinheiro à empresa
A sequência das operações apresentada pelo ex-governador também levanta questionamentos sobre a origem dos recursos que abasteceram o fundo.
Segundo Taques, o Venture Finance foi criado em março de 2024, apenas 19 dias antes do acordo envolvendo os R$ 308 milhões. Naquele momento, o fundo apresentava saldo de aproximadamente R$ 3 mil.
Em 7 de junho de 2024, a Minerbras Mineração Ltda. teria se cadastrado na Sefer Investimentos, empresa ligada ao banco Master que operava o Venture Finance.
No cadastro, ainda segundo os documentos citados por Taques, a Minerbras declarou patrimônio líquido de R$ 12,4 milhões e informou uma conta no Banco Santander para recebimento dos valores.
Pouco antes de o Venture Finance transferir recursos para a Minerbras, um cotista não identificado teria realizado um aporte de R$ 18 milhões no fundo.
É justamente nesse ponto que surge uma das principais perguntas apresentadas pelo ex-governador: quem colocou os R$ 18 milhões no fundo?
Os documentos disponíveis na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segundo Taques, não identificam o investidor. Os relatórios encaminhados ao órgão regulador registrariam a entrada de um segundo cotista naquele mês, mas também sem revelar sua identidade.
A ata da assembleia que encerrou a captação, realizada em 15 de agosto de 2024, faria referência a um anexo contendo a relação dos cotistas presentes. Esse anexo, entretanto, não aparece entre os documentos apresentados ao regulador.
A movimentação coloca no centro do caso uma sequência financeira que, segundo o ex-governador, precisa ser esclarecida: um fundo praticamente sem recursos recebe um aporte milionário de origem não identificada e, posteriormente, repassa R$ 14 milhões à empresa ligada ao filho do ex-governador. Desse montante, R$ 13,2 milhões seguem para a holding familiar.
Negócio com notas promissórias terminou com dívida zerada
Outro ponto destacado por Taques envolve a justificativa apresentada para a operação entre o Venture Finance e a Minerbras.
Segundo o ex-governador, o negócio teria sido estruturado por meio de notas promissórias com pagamento previsto em 55 parcelas.
O que ocorreu posteriormente, porém, é apontado por Taques como outra circunstância que exige explicações.
De acordo com os documentos mencionados por ele, as 55 duplicatas foram baixadas a zero em dezembro de 2024, registradas como perda integral por meio de PDD — Provisão para Devedores Duvidosos.
Na prática contábil descrita pelo ex-governador, a operação teria terminado com o reconhecimento integral da dívida como perda.
A combinação entre o aporte milionário no fundo, a transferência dos R$ 14 milhões para a Minerbras, o repasse de R$ 13,2 milhões para a Sollo e a posterior baixa integral das 55 parcelas é apresentada por Taques como uma sequência que precisa ser explicada pelos envolvidos.
“Uma empresa declara por escrito, em 7 de junho, que não possui endividamento financeiro. Dias depois toma R$ 14 milhões emitindo notas contra si mesma. No dia 12, manda 94% desse dinheiro para a holding da própria família. E nunca paga, o crédito é baixado a zero, sem um único vencimento em atraso. Isso não é opinião minha. Está nos papéis”, disse.
“Quem colocou esse dinheiro no fundo?”
Pedro Taques afirma que não está atribuindo crime aos envolvidos, mas questionando movimentações que, segundo ele, aparecem nos documentos oficiais.
“Não estou acusando ninguém de crime. Estou lendo documentos oficiais — da Comissão de Valores Mobiliários, da Junta Comercial, do portal da transparência do próprio governo — e fazendo a pergunta que eles impõem: quem colocou esse dinheiro no fundo em junho? O nome não está em lugar nenhum. E a única página que teria o nome foi a única que não chegou ao regulador”, afirmou.
As movimentações descritas por Taques ganham relevância no contexto da Operação Heritage, que investiga a estrutura financeira relacionada aos R$ 308 milhões pagos pelo governo de Mato Grosso aos fundos de investimento.
“Nada é invenção. São todos documentos públicos. O documento está aqui. A prova de que você [Mauro Mendes] panhô o dinheiro da Oi”, destacou durante live no YouTube.
VEJA O QUE DISSE PEDRO TAQUES
O caso, portanto, deixa uma série de perguntas em aberto sobre a origem dos recursos, a identidade dos cotistas e a sequência de transferências que levou milhões de reais de um fundo de investimento até empresas relacionadas à família do ex-governador Mauro Mendes.
As movimentações descritas neste texto são apresentadas com base nos documentos e informações fornecidos por Pedro Taques. A existência das operações financeiras, por si só, não significa comprovação de crime ou responsabilidade penal dos envolvidos, cabendo às autoridades responsáveis pela investigação apurar a legalidade e a origem dos recursos.
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