02/09/2026 - 17:56 | Atualizada em 03/09/2026 - 11:07
Cícero Henrique
A corrida eleitoral deste ano ganhou um ingrediente que nenhum candidato deveria conseguir esconder atrás de discurso político: o histórico de autuações ambientais. Um levantamento aponta que 13 candidatos do Partido Liberal (PL) concentram aproximadamente R$ 6 milhões em multas aplicadas pelo Ibama nos últimos três anos.
O valor corresponde a quase 40% dos R$ 15,5 milhões em penalidades registradas pelo órgão federal contra 49 candidatos de 15 partidos entre janeiro de 2023 e agosto deste ano. Os números foram reunidos pela Agência Tatu em parceria com o Intercept Brasil e mostram que as autuações não estão restritas a uma única legenda. Depois do PL, aparecem Podemos, com R$ 2,6 milhões; Republicanos, com R$ 1,7 milhão; MDB, com R$ 1,5 milhão; e PSDB, com cerca de R$ 1 milhão.
Também integram o levantamento candidatos de PRD, Solidariedade, PCdoB, PSD, PP, União Brasil, PT, Novo, PDT e DC.
O tamanho das multas chama atenção, mas o que está por trás delas é ainda mais relevante. Os registros envolvem destruição de vegetação nativa, utilização de áreas embargadas, exploração de floresta pública e outras situações apontadas pela fiscalização ambiental. São ocorrências que colocam em confronto dois interesses: de um lado, atividades econômicas realizadas em propriedades rurais; de outro, a obrigação de preservar áreas protegidas e cumprir a legislação ambiental.
Uma multa de R$ 3,2 milhões no topo da lista
O maior valor individual do levantamento está relacionado a Ulisses Gonçalves, candidato do PL a deputado estadual no Maranhão. A autuação chega a R$ 3,2 milhões e está ligada às Fazendas Byeta e Byeta II, em Buriticupu.
As propriedades somam 2.623 hectares. Segundo o Ibama, a fiscalização identificou a destruição de 652,7 hectares de vegetação nativa protegida na Amazônia Legal. Para dimensionar o tamanho da área, o levantamento compara a extensão destruída com o Parque Ibirapuera, em São Paulo: a área apontada na autuação equivale a quase quatro unidades como aquela.
O caso coloca o candidato diante de uma questão que ultrapassa a disputa eleitoral: como conciliar a exploração econômica da terra com a obrigação legal de preservar a vegetação nativa?
Na segunda posição aparece Alexandre Guimarães, deputado federal do MDB do Tocantins e candidato ao Senado. São duas autuações que somam quase R$ 1,5 milhão e estão relacionadas à Fazenda Lorena, em Pacajá, no Pará.
Uma delas, no valor de R$ 975,5 mil, refere-se ao impedimento da regeneração natural de 195 hectares de floresta amazônica por atividade pecuária. A outra, de R$ 500 mil, envolve a criação de gado em uma área que estava embargada para essa atividade desde 2016. Conforme o levantamento, a fiscalização encontrou animais no local anos depois do embargo.
Desmatamento também entra na disputa pelo governo do Pará
O terceiro maior valor está associado a Daniel Barbosa, o Doutor Daniel, candidato do Podemos ao governo do Pará e ex-prefeito de Ananindeua. O Ibama aplicou uma multa de R$ 1,4 milhão pela destruição de 280 hectares de floresta nativa amazônica em Tomé-Açu.
O candidato tem trajetória política iniciada em 2012 e já exerceu os cargos de vereador, prefeito de Ananindeua por dois mandatos e deputado estadual. Ao longo da carreira, passou por PSDB, MDB e PSB.
A quarta posição é ocupada por Wanderley Dias Vieira, conhecido como Doutor Wanderley, candidato do PL a deputado estadual no Pará. As três autuações aplicadas a ele ultrapassam R$ 1,04 milhão.
A maior delas chega a R$ 1,02 milhão e está relacionada à exploração de 203 hectares de floresta pública dentro da Terra Indígena Apyterewa, sem autorização ambiental, segundo o Ibama. O candidato também foi incluído na lista suja do trabalho escravo em 2023, quando ocupava o cargo de vice-prefeito de Tucumã.
Caso de Mato Grosso tem contestação
Entre os cinco candidatos com maiores valores aparece o deputado estadual Chico Guarnieri (PSDB-MT), que busca a reeleição. Ele recebeu uma multa de R$ 970 mil por uma área de 194 hectares apontada pelo Ibama como desmatada em Barra do Bugres, no Mato Grosso.
O caso, entretanto, é contestado pelo parlamentar. A defesa questiona administrativamente a autuação e sustenta que, durante a fiscalização, apenas aproximadamente nove hectares da área indicada estariam dentro de área de preservação.
Outro elemento apresentado pela defesa é a posterior validação do Cadastro Ambiental Rural da propriedade pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso. De acordo com parecer técnico da secretaria, o imóvel possui mais de 1,6 mil hectares de Reserva Legal preservada e não apresenta degradação de áreas de preservação permanente.
A propriedade também possui autorização provisória para agricultura e pecuária em 936,04 hectares, com validade até dezembro de 2026.
A própria defesa reconhece que a validação do CAR não elimina automaticamente a autuação federal e afirma que os documentos produzidos posteriormente devem ser considerados na análise do caso. Portanto, o episódio permanece sujeito às instâncias administrativas e jurídicas responsáveis pela decisão.
O eleitor precisa conhecer o histórico
É importante separar duas coisas: uma autuação ambiental não equivale, automaticamente, a uma condenação definitiva. Os envolvidos têm direito à defesa e os processos precisam ser analisados pelas autoridades competentes. Esse cuidado é indispensável para que informação jornalística não seja transformada em sentença.
Mas o outro lado também precisa ser dito com clareza: multas ambientais de centenas de milhares ou milhões de reais não podem ser tratadas como um detalhe irrelevante quando os autuados disputam eleições.
O eleitor tem o direito de saber quais são os fatos registrados pelos órgãos de fiscalização e quais são as explicações apresentadas pelos candidatos. A transparência precisa funcionar nos dois sentidos: acusação documentada, defesa apresentada e situação processual conhecida.
O debate se torna ainda mais importante quando estão envolvidas áreas da Amazônia Legal, terras indígenas, florestas públicas e propriedades submetidas a embargo. A legislação ambiental existe justamente porque determinadas agressões ao patrimônio natural ultrapassam os limites de uma propriedade particular e produzem consequências para toda a sociedade.
O Brasil pode discutir desenvolvimento econômico, produção rural e geração de empregos sem transformar a preservação ambiental em inimiga. O que não pode ser normalizado é a destruição de áreas protegidas como se a floresta fosse um obstáculo descartável e as multas fossem apenas mais um custo da atividade econômica.
E, quando os responsáveis pelas áreas autuadas pedem votos para ocupar cargos públicos, a sociedade tem ainda mais motivos para exigir explicações.
A floresta não participa da eleição. Não faz campanha, não tem partido e não ocupa tribuna. Mas é diretamente afetada pelas decisões de quem chega ao poder.
Por isso, os números do levantamento devem ser encarados como uma cobrança pública: candidatos que pretendem representar a população precisam explicar seus históricos ambientais, enquanto os órgãos competentes devem garantir que cada autuação seja apurada com rigor, transparência e respeito ao direito de defesa.
O PL e os candidatos Alexandre Guimarães e Doutor Wanderley não haviam se manifestado até a publicação do levantamento. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos.
https://www.intercept.com.br/2026/09/02/pl-flavio-bolsonaro-ranking-candidatos-multas-ambientais-ibama/
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