14/08/2026 - 09:51 | Atualizada em 14/08/2026 - 16:39
Cícero Henrique
O deputado federal e candidato ao Senado José Medeiros (PL-MT) entrou em uma tempestade política ao defender uma proposta para impedir operações policiais contra candidatos nos seis meses anteriores às eleições. A ideia veio à tona justamente após a Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal e que atingiu adversários políticos de Medeiros na disputa ao Senado. Depois da repercussão, a assessoria do parlamentar informou que ele desistiu de apresentar o projeto.
A proposta, porém, deixou uma pergunta que Medeiros terá de carregar durante a campanha: por que candidatos deveriam receber uma espécie de período de proteção contra operações policiais? Investigação não pode funcionar conforme a conveniência de calendário eleitoral. Se existem elementos para uma apuração, cabe às autoridades investigar dentro da lei, independentemente de quem esteja disputando eleição.
O PRÓPRIO CANDIDATO DE MEDEIROS CHAMOU A IDEIA DE “ABSURDO”
O episódio ganhou contornos ainda mais constrangedores porque a principal reação veio de dentro do próprio grupo político. Wellington Fagundes (PL), candidato ao Governo de Mato Grosso e aliado de Medeiros, criticou publicamente a proposta e classificou como “absurdo” impedir investigações durante o período eleitoral.
Fagundes questionou, em discurso no Senado, como ficariam eventuais crimes cometidos durante a própria campanha caso uma regra proibisse operações policiais naquele período. A mensagem foi direta: eleição não pode virar salvo-conduto para ninguém.
A declaração desmontou parte do discurso de Medeiros. O candidato ao Senado tentou justificar a ideia argumentando que operações próximas à eleição poderiam atingir outras candidaturas da mesma coligação. Mas a justificativa abriu outro problema: se uma investigação é legítima, o fato de produzir consequências políticas não transforma automaticamente a investigação em irregularidade.
A OPERAÇÃO HERITAGE NO CENTRO DA POLÊMICA
A proposta de Medeiros apareceu depois da Operação Heritage, da Polícia Federal, que alcançou o ex-governador Mauro Mendes (União Brasil) e o deputado federal Fábio Garcia, adversários de Medeiros na disputa eleitoral. Reportagens sobre o caso relacionaram a operação à investigação de suspeitas envolvendo um acordo de centenas de milhões de reais entre o Governo de Mato Grosso e a operadora Oi.
Medeiros questionou publicamente o momento da operação e chegou a dizer que, em sua avaliação, ela poderia ter sido realizada antes ou depois do período eleitoral. É uma posição política legítima para ser debatida, mas tentar transformar essa insatisfação em uma regra geral que impeça operações contra candidatos seria outra coisa.
O recuo posterior não apaga o episódio. A proposta foi anunciada, provocou reação e acabou sendo abandonada depois da repercussão. O eleitor agora tem o direito de cobrar explicações.
DA DEFESA DE BOLSONARO À POLÊMICA COM A PF
A trajetória de Medeiros também é marcada pela proximidade com Jair Bolsonaro. Em março de 2024, o ex-presidente entregou ao deputado a chamada medalha dos “Três Is”, com as expressões “imorrível”, “incomível” e “imbrochável”, durante a comemoração do aniversário do parlamentar.
A relação política com o bolsonarismo é conhecida. Mas uma candidatura ao Senado exige mais do que fidelidade a um grupo político: exige compromisso com instituições, transparência e respeito às regras que valem para todos.
No caso da proposta de Medeiros, o problema político é exatamente esse. Quem pretende chegar ao Senado precisa explicar por que considerou necessário criar uma restrição para operações policiais contra candidatos em período eleitoral.
A Polícia Federal não pode escolher suas investigações pela conveniência dos candidatos. E candidato não pode escolher quando a polícia deve ou não trabalhar.
No fim das contas, Medeiros recuou. Mas a pergunta ficou: quem ganha quando uma operação policial é proibida justamente no período em que os eleitores mais precisam saber o que acontece nos bastidores do poder?
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