09/08/2026 - 10:46 | Atualizada em 10/08/2026 - 11:11
Cícero Henrique
A obtenção de um leito de UTI para a mãe do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), em pouco mais de uma hora, expôs um contraste que tem provocado questionamentos sobre a realidade da saúde pública enfrentada pela população. Enquanto Silvana Jacques Brunini teve a solicitação aprovada em apenas 64 minutos após a inserção no sistema de regulação, pacientes em estado grave seguem aguardando por vagas em unidades de terapia intensiva, mesmo diante de quadros considerados críticos.
Documentos divulgados pelo PNB Online apontam que o pedido de internação da mãe do prefeito foi registrado às 18h22min15s e aprovado às 19h26min57s, com leito garantido no Hospital Metropolitano, em Várzea Grande. Servidores da rede pública de saúde ouvidos pela reportagem, sob condição de anonimato, classificaram a rapidez do procedimento como incomum diante da rotina enfrentada pelos demais pacientes que dependem da regulação estadual.
O caso ganhou ainda mais repercussão porque ocorre em meio a constantes reclamações sobre a demora na liberação de vagas de UTI em Mato Grosso. Enquanto a mãe do chefe do Executivo municipal conseguiu transferência praticamente imediata, pacientes sem influência política continuam enfrentando sucessivas negativas de hospitais e permanecem internados em Unidades de Pronto Atendimento aguardando encaminhamento.
Entre os casos citados pela reportagem está o da paciente identificada pelas iniciais D.C.L., internada na UPA Morada do Ouro desde o dia 5 de agosto. Mesmo necessitando de atendimento especializado, ela teria recebido negativas da Santa Casa, Hospital Municipal de Cuiabá e Hospital São Benedito, permanecendo à espera de uma vaga de terapia intensiva.
Outro exemplo é o da paciente F.D.M.E., internada na UPA Verdão em estado considerado gravíssimo. Segundo os documentos obtidos pelo PNB Online, ela enfrenta choque séptico, faz uso de noradrenalina e aguarda avaliação urgente de infectologista, além da liberação de um leito de UTI. O prontuário aponta recusas de unidades como Hospital Central, Hospital Municipal de Várzea Grande, Santa Casa e Hospital Municipal de Cuiabá.
A situação reforça críticas à condução da saúde pública em Cuiabá e ao discurso adotado por Abilio Brunini desde a campanha eleitoral. O prefeito frequentemente afirma que a saúde é uma das prioridades de sua gestão, mas os relatos de pacientes aguardando transferência e a superlotação das UPAs continuam alimentando questionamentos sobre a efetividade das medidas anunciadas.
Embora a regulação dos leitos seja responsabilidade do Governo de Mato Grosso, a diferença entre o tempo de resposta obtido pela mãe do prefeito e a realidade enfrentada por outros pacientes acabou ampliando o debate sobre igualdade de acesso ao sistema público de saúde. Para familiares de pessoas que aguardam dias por uma vaga, a velocidade do atendimento chama atenção e gera indignação.
A legislação estabelece que pacientes não devem permanecer por mais de 24 horas em Unidades de Pronto Atendimento, que têm a função de estabilizar e encaminhar os casos para hospitais de maior complexidade. Na prática, porém, a falta de leitos faz com que muitos pacientes permaneçam por períodos muito superiores ao previsto, transformando as UPAs em estruturas improvisadas para tratamentos que exigem internação hospitalar.
O episódio coloca pressão sobre a administração municipal e também sobre o sistema estadual de regulação, ao evidenciar um cenário em que o acesso rápido a tratamentos de alta complexidade parece distante da realidade enfrentada pela maioria da população. A comparação entre os casos reforça a percepção de que o sistema continua incapaz de oferecer respostas rápidas e uniformes para todos os cidadãos.
Segundo as informações divulgadas pelo PNB Online, os documentos analisados revelam uma disparidade que dificilmente passa despercebida em meio à crise da saúde pública. Enquanto pacientes em estado gravíssimo aguardam dias por uma vaga, a internação da mãe do prefeito ocorreu em tempo recorde, levantando questionamentos sobre transparência, prioridade e equidade no acesso aos serviços de saúde.
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