09/08/2026 - 10:07 | Atualizada em 09/08/2026 - 10:36
Cícero Henrique
O avanço das investigações da Polícia Federal na Operação Heritage lançou novos questionamentos sobre a gestão do ex-governador Mauro Mendes (União Brasil) e sobre a destinação de recursos públicos em Mato Grosso. A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou bloqueios de bens, quebras de sigilos bancário e fiscal e outras medidas cautelares, colocou no centro da apuração pessoas e empresas ligadas ao vice-prefeito de Lucas do Rio Verde, Joci Piccini (União), além de operações financeiras que, segundo a PF, teriam beneficiado grupos empresariais associados ao círculo político do então governador.
De acordo com a investigação, empresas do Grupo Piccini teriam realizado o aporte inicial de recursos utilizados na compra de créditos judiciais relacionados a uma disputa envolvendo a operadora Oi e o Estado de Mato Grosso. Os créditos foram adquiridos por cerca de R$ 80 milhões e, posteriormente, revendidos a fundos de investimento. Mais tarde, o governo estadual celebrou um acordo de R$ 308 milhões para encerrar o litígio, operação que passou a ser analisada pelos investigadores.
A Polícia Federal sustenta que parte dos recursos movimentados nessa estrutura financeira teria percorrido diferentes fundos de investimento até alcançar empresas vinculadas às famílias de Mauro Mendes e de seu então chefe da Casa Civil, Fábio Garcia. Entre os veículos financeiros citados estão os fundos Zurich FIM e London FIP, este último envolvido na aquisição de participações da Parecis Bioenergia pertencentes ao fundo 5M Capital, apontado pela investigação como ligado à família Mendes por meio da GS Heritage.

Na decisão que autorizou as medidas cautelares, Flávio Dino registrou que há indícios de uma engenharia financeira que, em tese, teria permitido a transferência de recursos públicos para patrimônio privado sob a aparência de operações societárias regulares. A observação do ministro reforça a gravidade das suspeitas e amplia a pressão por esclarecimentos sobre os negócios realizados durante o período em que Mauro Mendes comandava o Palácio Paiaguás.
O bloqueio de bens e a quebra de sigilos de Joci Piccini e o espólio de seu irmão, Hilário Renato Piccini, atingiram também empresas relevantes do agronegócio mato-grossense, como Amazônia Máquinas, Parecis Bioenergia, Dona Iracema Participações e Araguaia Agrícola. A dimensão da medida judicial evidencia que a investigação não se limita a agentes políticos, mas alcança estruturas empresariais que tiveram participação nas operações analisadas pela PF.
O caso ganha ainda mais repercussão pelo fato de Joci Piccini ocupar atualmente a vice-prefeitura de Lucas do Rio Verde e presidir a Fundação Rio Verde, entidade responsável pela organização da Show Safra, uma das maiores feiras do agronegócio brasileiro. A presença de lideranças políticas e empresariais entre os investigados amplia o interesse público sobre os desdobramentos da operação.
Embora não figure formalmente como alvo das medidas anunciadas nesta fase da investigação, Mauro Mendes aparece citado no contexto das apurações que buscam rastrear o destino dos recursos movimentados pelos fundos e empresas investigados. A conexão entre operações privadas e decisões envolvendo recursos públicos do Estado passou a ser um dos principais focos da Polícia Federal.
Em nota e declarações públicas, Mauro Mendes nega qualquer irregularidade. O ex-governador afirma que o acordo firmado entre o Estado e a Oi foi submetido à análise do Poder Judiciário, do Tribunal de Contas e dos Ministérios Públicos Estadual e de Contas, tendo sido considerado legal pelos órgãos competentes. A defesa sustenta que todas as etapas da negociação seguiram os procedimentos previstos na legislação.
Apesar das negativas, a Operação Heritage reabre o debate sobre transparência, governança e controle dos recursos públicos em Mato Grosso. A investigação ainda está em andamento e caberá às autoridades competentes determinar se houve ou não irregularidades nas operações financeiras analisadas. Até o momento, não há condenação contra Mauro Mendes, Joci Piccini ou os demais citados, prevalecendo a presunção de inocência durante todo o curso do processo.
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