04/08/2026 - 18:23 | Atualizada em 05/08/2026 - 09:00
Cícero Henrique
A divulgação da 2ª edição do Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, produzida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), acende um alerta que também precisa ser observado em Mato Grosso. O estudo revela um problema estrutural que afeta diversas unidades da federação: a insuficiência de efetivo policial para atender de forma adequada as demandas da população, especialmente em regiões de grande extensão territorial e crescimento populacional acelerado.
Em Mato Grosso, onde a expansão urbana, o avanço do agronegócio e o aumento dos fluxos econômicos exigem uma presença mais robusta das forças de segurança, a carência de policiais se transforma em um desafio permanente. A população convive com a sensação de insegurança enquanto os profissionais da área enfrentam jornadas desgastantes e uma demanda operacional cada vez maior.
O levantamento mostra que o déficit de efetivo é uma realidade nacional. A média brasileira aponta apenas 65,7% das vagas previstas preenchidas na Polícia Militar e 55,2% na Polícia Civil. Os números revelam uma fragilidade estrutural que compromete a capacidade de resposta das corporações e evidencia a necessidade urgente de investimentos em recursos humanos.
A situação se torna ainda mais preocupante quando analisada sob a perspectiva territorial. Mato Grosso possui uma das maiores extensões geográficas do país, com municípios separados por centenas de quilômetros. Sem efetivo suficiente, o policiamento ostensivo e as investigações criminais acabam enfrentando dificuldades para alcançar todas as regiões de forma eficiente.
Outro fator que merece atenção é o chamado "achatamento da pirâmide" nas corporações militares, fenômeno identificado pelo estudo e que também ocorre em Mato Grosso. Há mais policiais em postos intermediários de comando do que na base operacional responsável pelo patrulhamento diário das ruas. Isso reduz a presença efetiva de agentes nas atividades-fim da segurança pública.
Especialistas apontam que essa distorção é resultado de anos sem concursos públicos suficientes para renovar os quadros. Enquanto promoções ocorrem regularmente, a entrada de novos soldados não acompanha a mesma velocidade, criando um desequilíbrio que afeta diretamente a capacidade operacional das corporações.
As consequências são visíveis. Menos policiais nas ruas significam menor cobertura preventiva, maior dificuldade para atender ocorrências e aumento da pressão sobre os profissionais que permanecem na linha de frente. O resultado é um sistema que opera frequentemente no limite de sua capacidade.
O estudo também demonstra que o problema não está necessariamente ligado à remuneração. Mato Grosso aparece entre os estados com algumas das maiores remunerações médias para escrivães e investigadores da Polícia Civil. Ainda assim, os desafios relacionados à reposição de efetivo e à ampliação dos quadros permanecem presentes.
A comparação com países desenvolvidos reforça a preocupação. Enquanto corporações internacionais mantêm entre 60% e 70% de seus efetivos concentrados na base operacional, o Brasil registra apenas 28,9%. Essa diferença revela uma estrutura menos eficiente para garantir policiamento ostensivo e presença permanente junto à população.
Diante desse cenário, Mato Grosso precisa transformar o debate sobre segurança pública em prioridade estratégica. A realização periódica de concursos, o fortalecimento das carreiras policiais e a recomposição dos efetivos são medidas indispensáveis para evitar que a falta de profissionais continue comprometendo a capacidade do Estado de garantir segurança à população e enfrentar os desafios crescentes da criminalidade.
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