16/07/2026 - 15:49 | Atualizada em 17/07/2026 - 12:52
Cícero Henrique
A Amazônia deixou de ser apenas uma rota estratégica para o tráfico internacional de drogas e passou a representar uma das principais fronteiras de expansão do crime organizado na América Latina. A avaliação consta no estudo From Narco Cartels to Criminal Networks: The Structural Transformation of Organized Crime in Latin America and the Caribbean, divulgado pelo Instituto Igarapé, que aponta a atuação de mais de 30 grupos armados em disputa por influência em toda a Bacia Amazônica.
O avanço das organizações criminosas revela uma transformação profunda na dinâmica do crime. Segundo o relatório, os grupos ampliaram sua atuação para setores como garimpo ilegal, exploração de madeira, grilagem de terras, tráfico de animais silvestres, combustíveis, logística, agricultura e comércio internacional. O resultado é a formação de uma economia criminosa integrada, capaz de gerar dinheiro, influência territorial e maior resistência às ações de repressão do Estado.
Para Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé e coordenador do estudo, a Amazônia é um exemplo de como o crime organizado deixou de depender exclusivamente do tráfico de drogas. “Mais de 30 grupos armados operam em toda a Bacia Amazônica. Em algumas áreas, eles cobram impostos de garimpeiros, controlam o transporte fluvial ou decidem quem pode trabalhar em terras disputadas. O ouro e a madeira ilegais agora geram renda e influência territorial”, afirmou à CNN. A realidade descrita expõe um problema que vai muito além do narcotráfico e mostra o avanço de estruturas criminosas sobre territórios, comunidades e atividades econômicas.
A disputa pelo controle da região envolve rios, pistas clandestinas, áreas de mineração, comunidades e corredores logísticos usados para transportar drogas, ouro, madeira e outros produtos ilegais. O estudo aponta que essas atividades passaram a se complementar: recursos obtidos com a mineração ilegal podem financiar o tráfico de drogas, a grilagem facilita o avanço do garimpo e a mesma logística usada para transportar madeira pode servir para movimentar cocaína e armas.
O relatório também alerta para a infiltração do crime organizado na economia legal. O ouro extraído ilegalmente pode ser misturado à produção legal antes de chegar a comerciantes ou refinarias, dificultando o rastreamento de sua origem. Na agricultura, produtos provenientes de áreas ocupadas ilegalmente podem ingressar em cadeias formais de comercialização. No setor de combustíveis, o estudo estima que roubos e adulterações gerem um custo de cerca de R$ 10 bilhões por ano ao varejo, enquanto grupos criminosos podem roubar ou adulterar combustíveis e revendê-los em postos legalmente registrados.
Os portos também aparecem como pontos estratégicos para a atuação dessas organizações. Segundo o estudo, funcionários podem ser recrutados, contêineres manipulados e empresas de fachada utilizadas para inserir cocaína e outras mercadorias ilícitas em cargas destinadas ao mercado internacional. O crime, portanto, não está apenas escondido nas áreas remotas da Amazônia: ele busca infiltrar-se em estruturas formais e explorar as fragilidades de cadeias econômicas inteiras.
O Instituto Igarapé avalia que a resposta dos governos precisa mudar. Operações policiais e militares podem produzir resultados imediatos, mas, segundo o relatório, raramente são suficientes para desmontar as estruturas econômicas que sustentam as organizações criminosas. Para Muggah, o maior erro é tratar o crime organizado apenas como um adversário armado que pode ser derrotado por prisões e intervenções militares.
A crítica é direta: prender integrantes ou apreender cargas não basta quando as redes financeiras, os mecanismos de lavagem de dinheiro e as estruturas que protegem e facilitam a atuação criminosa permanecem intactos. O estudo defende o fortalecimento da inteligência financeira, o combate à lavagem de dinheiro, a cooperação internacional e a identificação das redes responsáveis por financiar e sustentar as organizações.
O avanço do crime organizado na Amazônia expõe, portanto, uma fragilidade que não pode ser enfrentada apenas com operações pontuais. Enquanto o Estado combate os braços armados, as estruturas econômicas continuam se reorganizando e ocupando novos espaços. Para o Instituto Igarapé, o verdadeiro resultado deve ser medido pela capacidade de desmantelar as redes de lavagem de dinheiro e recuperar ativos criminosos e não apenas pelo número de prisões ou apreensões.
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