16/07/2026 - 12:26 | Atualizada em 16/07/2026 - 17:44
Cícero Henrique
Enquanto as Câmaras Municipais de Cuiabá e Várzea Grande abusam diariamente da concessão de moções de aplausos, títulos e homenagens, transformando sessões legislativas em verdadeiros palcos de distribuição de honrarias, experiências de outros estados mostram que é possível discutir limites, custos e critérios para evitar a banalização desses reconhecimentos.
O problema não está em homenagear pessoas que efetivamente prestaram relevantes serviços à sociedade. A questão é o excesso. Quando praticamente todos os dias surgem novas moções, homenagens e solenidades, o reconhecimento perde força, o mérito se dilui e a própria honraria corre o risco de deixar de representar uma distinção especial.
Um exemplo citado é o da Câmara Municipal de Curitiba, no Paraná. Em 2006, quase mil pessoas receberam homenagens ou títulos concedidos pela Casa. Foram 923 homenageados, além de 35 pessoas que receberam os títulos de Cidadão Honorário ou Vulto Emérito. Para a entrega das honrarias, foram realizadas 79 sessões solenes, enquanto as sessões plenárias, nas quais projetos de lei são votados, totalizaram 120.
Naquele período, os 22 prêmios existentes na Câmara de Curitiba custavam R$ 100 mil por ano aos cofres públicos. O volume de homenagens provocou críticas entre os próprios vereadores, que passaram a questionar a criação indiscriminada de novas titulações e a perda de prestígio das premiações. Um dos parlamentares chegou a defender que apenas um prêmio por ano seria suficiente para preservar o valor e a importância das honrarias.
A situação também chegou a provocar constrangimentos. Um vereador relatou ter indicado um profissional reconhecido da área científica para receber uma homenagem, mas ouviu do próprio indicado a pergunta: “Para quê?”. O argumento era simples: diante da existência de homenagens concedidas a pessoas sem grande notoriedade, o reconhecimento acabava perdendo significado.
O debate demonstra que o excesso de homenagens pode produzir exatamente o efeito contrário ao desejado. Em vez de valorizar quem realmente se destaca, a banalização transforma a honraria em algo rotineiro, previsível e, em muitos casos, utilizado como instrumento de aproximação política.
Em Santos, no litoral de São Paulo, a discussão foi ainda mais longe. A Câmara Municipal aprovou uma resolução determinando que os gastos de homenagens feitas a empresas sejam pagos pelos próprios vereadores responsáveis pela iniciativa. Despesas com recepção, festividades, coquetéis, decoração e som ambiente não podem ser bancadas pelo Legislativo.
A medida também prevê que os custos de confecção das placas sejam ressarcidos pelo autor da homenagem. A justificativa apresentada foi direta: a sociedade critica o uso do dinheiro arrecadado com impostos para premiar pessoas ou empresas, especialmente quando as homenagens não representam consenso ou reconhecimento amplo dentro da comunidade.
É justamente esse tipo de debate que parece faltar em Cuiabá e Várzea Grande. As Câmaras Municipais precisam discutir se a quantidade exagerada de moções de aplausos e homenagens não está esvaziando o significado dessas iniciativas. Uma honraria deveria ser uma distinção. Quando se torna uma prática diária, perde o caráter excepcional.
O cidadão não elege vereador para transformar o Legislativo em uma fábrica de certificados, placas e sessões solenes. A prioridade deveria ser a fiscalização do Executivo, a discussão de projetos, a cobrança por serviços públicos eficientes e a defesa dos interesses da população.
Homenagear quem merece é legítimo. Distribuir honrarias em excesso, sem critérios claros e sem discutir os custos envolvidos, é outra coisa. Em tempos de cobrança por eficiência, transparência e responsabilidade com o dinheiro público, Cuiabá e Várzea Grande deveriam olhar para experiências de outras Câmaras e discutir um freio para a banalização das homenagens.
Porque, quando todo mundo é homenageado, a homenagem deixa de ser uma honraria. E quando o reconhecimento vira rotina, quem realmente merece destaque acaba perdido no meio de uma multidão de homenageados
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