Nova NR-1 coloca saúde mental no centro das responsabilidades das empresas
A partir do dia 26/5 empresas passam a responder pela gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho
22/05/2026 - 08:50
Foto: Meta AI
A partir da próxima semana, 26 de maio de 2026, entra oficialmente em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, estabelecendo uma mudança significativa na forma como as empresas brasileiras deverão lidar com saúde mental, segurança psicológica e gestão de riscos no ambiente corporativo.
A nova diretriz amplia a responsabilidade das organizações ao reconhecer formalmente os riscos psicossociais como fatores que precisam ser identificados, avaliados, monitorados e prevenidos dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Na prática, questões como assédio moral, sobrecarga de trabalho, jornadas exaustivas, pressão excessiva, ambientes tóxicos, falta de suporte emocional e adoecimento mental passam a integrar, de forma mais objetiva, o escopo de responsabilidade das empresas.
A atualização ocorre em um cenário de crescimento expressivo dos afastamentos relacionados à saúde mental no Brasil. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam aumento contínuo nos benefícios concedidos por transtornos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout nos últimos anos.
Especialistas avaliam que o tema deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar corporativo para se tornar uma questão estratégica, jurídica, financeira e reputacional.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos mentais geram perdas globais estimadas em cerca de US$ 1 trilhão por ano em produtividade. No Brasil, estudos da International Stress Management Association (ISMA-BR) indicam que aproximadamente 32% dos trabalhadores apresentam sintomas relacionados ao burnout, colocando o país entre os que possuem maiores índices de estresse ocupacional no mundo.
Além dos impactos humanos, o adoecimento emocional também pressiona diretamente as empresas por meio do aumento do absenteísmo, presenteísmo, rotatividade, afastamentos previdenciários, queda de produtividade, judicialização trabalhista e desgaste institucional.
Para Gregório Andrade, especialista em direito do trabalho da Sama Care, empresa especializada em saúde mental corporativa e soluções de cuidado emocional para organizações, a atualização da NR-1 representa uma transformação estrutural na cultura corporativa brasileira.
“A nova NR-1 muda o entendimento de que saúde mental era apenas uma ação complementar de RH. Agora, os riscos psicossociais passam a integrar formalmente a gestão de riscos ocupacionais das empresas, exigindo processos, monitoramento, prevenção e responsabilidade institucional”, afirma Gregório.
A norma também reforça a necessidade de atuação preventiva. Isso inclui desde o mapeamento de riscos organizacionais até a implementação de programas internos de apoio psicológico, desenvolvimento de lideranças, canais de acolhimento, políticas de prevenção ao assédio e estratégias voltadas à construção de ambientes emocionalmente mais seguros.
E ponto de preocupação, é que muitas empresas ainda não estão preparadas para atender integralmente às exigências da nova regulamentação.
“Não se trata apenas de oferecer terapia ou benefícios isolados. A nova NR-1 exige que a empresa compreenda os fatores organizacionais que geram adoecimento e implemente uma gestão contínua desses riscos”, destaca o especialista.
Empresas que negligenciarem esses fatores poderão enfrentar não apenas aumento de passivos trabalhistas, mas também dificuldades relacionadas à retenção de talentos, reputação institucional e competitividade de mercado.
Outro ponto importante é que a atualização acompanha uma transformação global nas relações de trabalho, especialmente após a pandemia, quando temas ligados à saúde emocional ganharam maior relevância dentro das organizações. O modelo híbrido, o excesso de conectividade, a hiperprodutividade e o aumento da pressão psicológica passaram a exigir novas formas de gestão.
A expectativa é que a nova regulamentação acelere investimentos em saúde corporativa, tecnologia aplicada ao cuidado emocional, programas de acolhimento e indicadores de bem-estar organizacional.
Para a Gregório, o momento exige uma mudança de postura das lideranças e maior integração entre áreas como recursos humanos, jurídico, compliance, medicina ocupacional e gestão estratégica.
“A saúde mental deixou de ser apenas um tema humano. Hoje ela impacta diretamente produtividade, clima organizacional, reputação, retenção de talentos e sustentabilidade dos negócios”, completa o especialista.