15/04/2026 - 09:38 | Atualizada em 16/04/2026 - 08:38
Cícero Henrique
O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), construiu sua trajetória política ancorado em críticas contundentes ao governo federal e ao campo progressista. No entanto, diante de uma das obras mais relevantes para a saúde pública do estado, o novo Hospital Universitário Júlio Müller, o discurso ideológico dá lugar a uma atuação pragmática e, para críticos, marcada por contradições evidentes. O empreendimento é financiado em parte significativa por recursos da União, sob gestão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e terá administração vinculada à Universidade Federal de Mato Grosso.
A recente disputa envolvendo a localização da unidade escancarou o embate político. Brunini reagiu à mudança territorial aprovada pela Assembleia Legislativa, que transferia a área do hospital para o município vizinho de Santo Antônio de Leverger. Em tom combativo, pressionou publicamente o Legislativo e, após articulação com o presidente da Casa, Max Russi (Podemos), celebrou um acordo para reverter a decisão e manter o hospital em Cuiabá. A negociação, exposta nas redes sociais, evidenciou o uso político de uma pauta estratégica, com declarações que reforçam a personalização do debate em torno de uma obra de interesse coletivo.
Outro ponto que intensifica as críticas é o contraste entre o posicionamento atual do prefeito e declarações passadas. Em 2025, Brunini atacou duramente a qualidade da Universidade Federal de Mato Grosso, instituição que agora será responsável pela gestão do hospital. A mudança de postura alimenta questionamentos sobre coerência política e oportunismo administrativo, especialmente considerando que o funcionamento da unidade dependerá diretamente da estrutura federal, incluindo a atuação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).
Além disso, a narrativa em torno da obra também expõe tensões federativas. Embora o governo estadual, à época liderado por Mauro Mendes (União), destaque a execução física do projeto, parte expressiva do financiamento vem do orçamento federal. Trata-se, portanto, de um empreendimento compartilhado, cuja complexidade exige cooperação institucional — algo que contrasta com o tom de confronto adotado em diversos momentos. No centro dessa disputa, permanece a população, que depende menos da retórica política e mais da efetiva entrega de um hospital público funcional e de qualidade.
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