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Do bolsonarismo ao cristofascismo: como a extrema-direita transforma o mercado em religião e prepara seus herdeiros no Brasil

POLÍTICA

08/02/2026 - 12:37

Redação

Do bolsonarismo ao cristofascismo: como a extrema-direita transforma o mercado em religião e prepara seus herdeiros no Brasil

Foto: Arquivo Pessoal

O Brasil ocupa hoje uma posição estratégica no tabuleiro político da extrema-direita internacional. Longe de ser um caso isolado, o bolsonarismo se consolidou como uma das expressões mais sofisticadas de um fenômeno global que articula autoritarismo político, neoliberalismo radical, fundamentalismo religioso e discursos civilizatórios. Entender o que ocorreu — e o que ainda ocorre — no país é fundamental para compreender o avanço da extrema-direita não apenas na América Latina, mas em escala mundial.

Essa é a premissa central da pesquisa desenvolvida por Gabriela Segura-Ballar, pesquisadora que há anos investiga as novas direitas nas Américas a partir de uma perspectiva comparativa e transdisciplinar. Em seus estudos, Gabriela propõe um conceito que vem ganhando destaque no debate acadêmico e político: cristofascismo. A noção descreve a fusão entre uma leitura reacionária do cristianismo e o fundamentalismo neoliberal de mercado, produzindo uma forma de autoritarismo que não se sustenta apenas pela repressão, mas pela moralização da vida social, pela sacralização do mercado e pela demonização do Estado social.

Essa análise não nasce apenas de elaborações teóricas. Ela é resultado de uma pesquisa empírica extensa, que inclui trabalho de campo, observação direta, entrevistas com lideranças políticas e acompanhamento sistemático de processos eleitorais e mobilizações sociais. Entre 2022 e 2023, Gabriela morou no Brasil por um ano, justamente durante o período mais tenso da história política recente do país: a campanha presidencial, as eleições polarizadas, a radicalização do discurso bolsonarista e a organização de atos com caráter golpista.

“Eu estive no Brasil durante todo esse processo. Vivi o período eleitoral, acompanhei manifestações e consegui estar em eventos golpistas em Brasília. Fui testemunha direta de tudo isso”, relata em entrevista exclusiva ao Jornal Opção.

Além disso, ela morou por três anos na Argentina, está atualmente na Flórida, nos Estados Unidos, e pretende retornar ao Brasil este ano.

Essa vivência permitiu que a pesquisadora observasse de perto algo que, segundo ela, ainda é subestimado por parte da imprensa e da academia: a extrema-direita brasileira não é improvisada, nem caótica. Ela possui capacidade de organização, mobilização e produção de sentido, especialmente por meio do campo religioso.

Neoliberalismo mutante e a extrema-direita do século XXI

O populismo de direita e o autoritarismo estão em ascensão global após a crise financeira de 2008. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, do presidente Jair Bolsonaro, e o “Make America Great Again”, do presidente Donald Trump, são os exemplos mais notórios do ressurgimento de uma direita populista reacionária nas Américas.

Um dos pontos centrais da pesquisa de Gabriela Segura-Ballar é a crítica à ideia de que a extrema-direita contemporânea representa uma reação antineoliberal. Para ela, essa leitura já não se sustenta empiricamente. O que se observa, no Brasil e em outros países, é um processo de adaptação do neoliberalismo, que passa a operar sob novas roupagens políticas e morais.

“Depois de mais de uma década do surgimento dessas novas direitas, fica claro que não se trata de uma rejeição ao neoliberalismo, mas de uma adaptação. Alguns autores chamam isso de ‘neoliberalismo mutante’. Ele se apresenta como antiglobalista, mas continua profundamente comprometido com a lógica do mercado.”

Essa forma reconfigurada de neoliberalismo abandona o discurso tecnocrático típico dos anos 1990 e passa a se sustentar em narrativas morais, nacionalistas e religiosas. No Brasil, esse processo assumiu características próprias, articulando elementos globais do neoliberalismo com tradições políticas locais.

“No caso brasileiro, essa formação ideológica híbrida combina devoção às Forças Armadas, nostalgia de um passado imperial e o neopentecostalismo com uma ideologia neoliberal extrema, na qual o mercado adquire um estatuto quase sagrado.”

Essa sacralização da economia é um dos traços que distinguem o cristofascismo de outras formas históricas de autoritarismo. O mercado deixa de ser um instrumento e passa a ser tratado como ordem natural e moral, acima de qualquer questionamento democrático.

A partir de Wendy Brown, Hayek e Michel Feher, o neoliberalismo aparece como:

uma racionalidade que transforma indivíduos em empreendedores morais;
um regime que redefine valor, mérito e pertencimento;
um projeto que moraliza o mercado e mercantiliza a moral.

Um ano no Brasil: eleições, radicalização e experiência de campo

A decisão de morar no Brasil não foi apenas metodológica, mas política. Gabriela queria compreender o bolsonarismo a partir da experiência concreta, acompanhando seus rituais, símbolos, discursos e formas de mobilização.

“O mais importante para mim não foi apenas o que essas figuras diziam, mas a experiência de estar ali, de ver como esses discursos operam na prática.”

Durante o período eleitoral de 2022, a pesquisadora acompanhou a escalada da radicalização bolsonarista, marcada por desconfiança em relação às instituições, ataques ao sistema eleitoral e mobilização constante de bases religiosas.

Segundo ela, o Brasil entrou em uma fase ainda mais complexa após as eleições, marcada pela reorganização da extrema-direita e por sua crescente articulação internacional.

Acho que o país está mais complicado agora. E acredito que 2026 tende a ser ainda mais crítico, justamente pelo contexto internacional e pela reativação de doutrinas de segurança e mobilização da direita global

Para Gabriela, o bolsonarismo não pode ser analisado apenas como um movimento interno. Ele faz parte de uma rede transnacional, conectada ao trumpismo nos Estados Unidos e a outras expressões da extrema-direita no mundo.

Igrejas, política e o sequestro da fé

Um dos aspectos mais centrais observados por Gabriela Segura-Ballar durante sua permanência no Brasil foi o papel desempenhado pelas igrejas evangélicas na sustentação do bolsonarismo. Para ela, há um processo claro de captura do campo religioso por um projeto político autoritário.

“Existe uma enorme capacidade de mobilização porque há uma espécie de sequestro das igrejas. Grande parte das igrejas evangélicas está alinhada com esse projeto político.”

Ela faz questão de ressaltar que esse alinhamento não é absoluto e que existem resistências dentro do campo evangélico. No entanto, o projeto dominante tem sido eficaz em transformar a religião em uma máquina de produção de sentido político.

“Esse projeto evangélico está profundamente atravessado pelo bolsonarismo. A fé passa a funcionar como instrumento de disciplina moral, culpabilização individual e desmobilização coletiva.”

Essa dinâmica se manifesta de forma visível em marchas, cultos políticos e lideranças que assumem um papel quase religioso.

“Em algumas marchas, vemos figuras políticas se apresentando quase como líderes espirituais, como salvadores. Isso é extremamente preocupante.”

Segundo Gabriela, esse fenômeno exige uma resposta que vá além da política institucional.

“Os movimentos sociais precisam construir uma resposta também no campo religioso, capaz de denunciar o caráter sacrílego e idolátrico desses movimentos.”

Entrevistar a direita: metodologia, poder e performance

Durante sua pesquisa de campo, Gabriela Segura-Ballar entrevistou figuras centrais da direita brasileira, entre elas deputados federais ligados diretamente ao núcleo duro do bolsonarismo, como Nikolas Ferreira e Gustavo Gayer. Essas entrevistas não foram incorporadas diretamente à sua dissertação principal, mas desempenharam um papel fundamental na compreensão do fenômeno.

“Para mim, o mais interessante não foi apenas o conteúdo do que eles diziam, mas a experiência de conversar com essas pessoas.”

Ela explica que entrevistar figuras com poder real impõe desafios específicos ao pesquisador.

“Se você não se apresenta de uma determinada forma, eles simplesmente não falam com você. Isso gera uma reflexão etnográfica muito importante sobre o que significa pesquisar a direita.”

No caso de Gustavo Gayer, a pesquisadora observou um contraste marcante entre a imagem pública e o comportamento privado.

“Eles constroem personagens públicos muito eficazes. Em conversas privadas, a postura é outra. O Gayer falou inglês comigo o tempo todo. Para eles, isso é uma forma de demonstrar status internacional.”

Esse tipo de performance, segundo Gabriela, é central para a construção da autoridade política da extrema-direita.

“Eles são muito eficazes em construir imagens públicas que garantem poder e influência. O grande desafio é como desconstruir essas narrativas.”

Nikolas Ferreira e a sucessão do bolsonarismo: juventude, messianismo e radicalização ideológica

Entre todas as figuras observadas por Gabriela Segura-Ballar durante seu trabalho de campo no Brasil, uma se destaca de forma incontornável: Nikolas Ferreira. Para a pesquisadora, ele não é apenas mais um deputado bolsonarista, mas a principal aposta do movimento para o futuro, aquele que reúne carisma, capacidade de mobilização, inserção religiosa e coerência ideológica.

“De todos os candidatos do bolsonarismo hoje — Tarcísio, Caiado, os filhos do Bolsonaro — nenhum tem o alcance e a projeção que o Nikolas tem. Provavelmente, quem vai herdar essa liderança é ele.”

Essa avaliação não se baseia apenas em dados eleitorais, mas na observação direta de como Nikolas opera politicamente. Jovem, com menos de 30 anos, ele construiu uma base sólida nas redes sociais, uma presença constante no debate público e uma relação orgânica com o campo evangélico. Para Gabriela, isso o diferencia radicalmente de Jair Bolsonaro.

“O Bolsonaro nunca foi uma figura profundamente ideológica. Ele vinha das Forças Armadas, se cercou de ideólogos, mas não acreditava fanaticamente nessas ideias. Já o Nikolas acredita intensamente no que defende, quase de forma fanática.”

Essa convicção ideológica, segundo ela, torna Nikolas ainda mais perigoso. Enquanto Bolsonaro operava muitas vezes de forma errática, impulsiva e contraditória, Nikolas apresenta um discurso mais coeso, estruturado e ancorado em uma visão de mundo clara, na qual cristianismo reacionário e neoliberalismo extremo se reforçam mutuamente.

https://www.jornalopcao.com.br/politica/do-bolsonarismo-ao-cristofascismo-como-a-extrema-direita-transforma-o-mercado-em-religiao-e-prepara-seus-herdeiros-no-brasil-791815/


 

 

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