22/01/2026 - 19:00
Davi Molinari
O novo relatório “Estado das Finanças para a Natureza 2026” (State of Finance for Nature – SFN), publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), expõe um desequilíbrio crítico no sistema financeiro internacional. Segundo o documento, para cada US$ 1 investido em Soluções baseadas na Natureza (SbN), outros US$ 30 são destinados a atividades que aceleram a degradação ambiental.
O relatório quantifica o que chama de “fluxos financeiros negativos”: um montante de US$ 7,3 trilhões que, anualmente, financia a destruição de ecossistemas por meio de subsídios a combustíveis fósseis, agricultura predatória e outros setores poluidores. Em contrapartida, os investimentos em preservação e restauração somaram apenas US$ 220 bilhões no último ciclo anualizado.
O papel central do Estado no financiamento ambiental
Um dado relevante do relatório é a predominância do setor público na agenda de preservação. Dos US$ 220 bilhões investidos em SbN, 90% (US$ 197 bilhões) provêm de cofres públicos. O financiamento doméstico dos governos é o principal motor dessa conta, evidenciando que o mercado privado ainda está longe de assumir um papel de liderança na proteção do capital natural.
No lado oposto, os subsídios governamentais considerados prejudiciais ao meio ambiente (EHS) somam US$ 2,4 trilhões. O setor de combustíveis fósseis abocanha a maior fatia (47%), seguido pela agricultura e gestão de recursos hídricos. Para o PNUMA, a transição para uma economia sustentável exige não apenas novos aportes, mas o redirecionamento estratégico desses subsídios para práticas regenerativas.
A situação do Brasil
A situação na América Latina, que aumentou em 10% seus gastos públicos em SbN entre 2022 e 2023, apresenta um desempenho superior à média global, com uma proporção relativa estimada entre 10 e 20 dólares destrutivos para cada 1 dólar sustentável. Esse cenário contrasta com regiões como o Oriente Médio, onde esses investimentos verdes caíram 11% no mesmo período, agravados por altos subsídios a combustíveis fósseis, resultando em uma proporção relativa ainda pior, entre 50 e 70 dólares destrutivos para cada 1 sustentável.
O relatório não traz dados específicos por países, mas no Brasil, com base em dados da OCDE, FMI e Iniciativa de Política Climática (CPI), estima-se uma proporção significativamente mais equilibrada: entre 3 e 5 dólares “destrutivos” para cada 1 dólar “protetor”. Esse índice é reflexo de iniciativas como programas de agricultura de baixa emissão de carbono e investimentos em áreas de proteção ambiental. Na outra ponta do espectro global, a Arábia Saudita apresenta um dos piores índices, com estimativas que superam os 70 dólares em destruição para cada 1 dólar em proteção, devido aos massivos incentivos aos fósseis e baixos aportes em conservação.
O abismo financeiro até 2030
As metas estabelecidas pelas Convenções da Rio-92 e atualizadas na COP30 (Belém) exigem que o investimento em preservação atinja US$ 571 bilhões anuais até 2030. Atualmente, o mundo enfrenta uma lacuna de US$ 351 bilhões por ano para cumprir os objetivos globais de biodiversidade e clima.
O relatório destaca que investir na natureza é uma estratégia de eficiência econômica. Estima-se que os gastos baseados na natureza ofereçam um retorno de US$ 7 a US$ 30 para cada dólar investido, além do potencial de gerar 395 milhões de empregos até o final desta década. “A manutenção do status quo nos prende à degradação dos ecossistemas. Governos e instituições financeiras têm o poder de redirecionar fluxos e destravar o crescimento com equidade”, conclui o documento.
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