01/08/2025 - 15:18
Redação
Lançado em abril deste ano sem muito alarde, o livro Memórias da Pandemia: A atuação da ABIN no enfrentamento à COVID-19 (2020–2021) expôe os bastidores da atuação da inteligência brasileira durante o colapso sanitário da pandemia. Por meio de depoimentos de servidores que estiveram na linha de frente, a obra retrata os impasses técnicos enfrentados diante de resistências políticas e ideológicas do governo Bolsonaro.
À época a direção da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) era chefiada por Alexandre Ramagem, alinhado ao ex-presidente e agora também um dos oito réus do núcleo da trama golpista junto a ele no Supremo Tribunal Federal (STF).
“Se as decisões não foram tomadas, há que se perguntar àqueles que as receberam”, escreveu o pesquisador Gustavo Matta, da Fiocruz, no prefácio da obra. Em mais de 200 páginas, a agência revela que o órgão previu e alertou o governo em diversos momentos sobre a falta de oxigênio no Amazonas, a subnotificação de mortes, a ameaça do garimpo ilegal às populações indígenas e contaminação pela doença, além de produzir um parecer técnico demonstrando a ineficácia da hidroxicloroquina — tudo isso sem que o Executivo tomasse uma decisão para conter a crise.
Tentativas de censura
No documento, vários depoimentos de agentes da Abin, que tiveram suas identidades preservadas, destacam a falta de independência para lidar com o momento que o país enfrentava e citam o Poder Executivo como o principal responsável pela proliferação de desinformação e negacionismo, além disso, a tentativa de censura. A postura negacionista infiltrava-se nas estruturas do governo e do órgão, enfraquecendo a tomada de informações estratégicas. Termos como "lockdown" e "isolamento social" se "tornaram tabu" e não podiam aparecer nos documentos de inteligência.
"A gente sofreu muita pressão para diminuir, digamos assim, algumas observações que poderiam ser lidas como críticas ao governo. Mas eu era bastante dura para não mudar o documento. O que eu sempre pontuei é que não eram críticas ao governo. Eram críticas às políticas públicas que estavam sendo tomadas. E a política pública pode ser alterada. Foi uma tentativa de buscar uma solução num momento de crise. Acredito que o mesmo se aplica às políticas dos países. Em uma crise, alguém tem que apontar os problemas, porque se só bater palma, não se melhora", contou uma servidora que trabalhava na agência há 15 anos.
A mesma servidora ainda afirma que enfrentava dificuldades com a direção do órgão, chefiada por Ramagem. "A Inteligência tem que lidar com esse problema. Não estamos aqui para dar só as boas notícias ou para bater palma para o governante. Se eu fizer isso, ele não vai governar bem. Eu falava isso para o Diretor-Geral" .
Oxigênio em falta, previsões desprezadas
Segundo o documento, a ABIN alertou em diversas ocasiões, ainda em 2020, que o fornecimento de oxigênio medicinal em Manaus poderia entrar em colapso. O consumo diário do insumo passou de 14 mil m³ para 76,5 mil m³, enquanto a produção local só dava conta de 28,2 mil m³. A tragédia, porém, só ganhou visibilidade nacional em janeiro de 2021, quando dezenas de pessoas morreram asfixiadas nos hospitais da capital amazonense.
Subnotificação de mortes
A ABIN também identificou que o número oficial de mortes por COVID-19 em Manaus estava fortemente subnotificado. Os dados do serviço de inteligência apontaram que, enquanto a média histórica de mortes na cidade era de 28 por dia, o número chegou a 167 nos dias mais críticos da pandemia. Ainda assim, apenas cerca de 30% dessas mortes apareciam nos boletins oficiais.
https://www.gov.br/abin/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/memorias-da-pandemia/memorias-da-pandemia-1
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