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"TEM QUE SOFRER": Familiares de vítimas da covid celebram justiça e humilhação contra Bolsonaro, mas cobram por crimes na pandemia

'TORNOZELEIRA É POUCO'

23/07/2025 - 12:31 | Atualizada em 23/07/2025 - 12:51

Redação

Foto: Reprodução/CNN Brasil

As últimas medidas cautelares tomadas contra Jair Bolsonaro (PL) no âmbito do julgamento da tentativa de golpe de Estado, do qual é réu no Supremo Tribunal Federal (STF), foi muito comemorada por aqueles que esperam há anos que a Justiça seja feita contra o ex-presidente.

O sentimento que preencheu essas pessoas tinha como motivação não só o fato da justiça estar avançando em relação à trama golpista liderada por Bolsonaro, mas também porque significava o início do fim da impunidade que acoberta o ex-presidente desde o início de seu mandato, sobretudo durante a pandemia de Covid-19. 

Nas redes sociais, foram vários os relatos de pessoas que perderam parentes e amigos para a Covid-19 devido ao negacionismo de Bolsonaro durante o período, comemorando que agora o ex-presidente finalmente começaria a pagar por seus crimes – mesmo que não aqueles que resultaram em mais de 700 mil mortes, chegando a 3 mil por dia. O sentimento de impunidade e injustiça começava a ser substituído por uma esperança de ver Bolsonaro ser responsabilizado pela morte das pessoas que eles mais amavam.

Familiares de vítimas da covid também deram seus relatos, como o do professor Carlos Eduardo Marques, que perdeu o pai, Rosalvo Alceu Marques, em janeiro de 2021 para a doença. Aos 86 anos, Rosalvo foi uma das vítimas que acreditaram nas declarações de Bolsonaro em defesa do uso de ivermectina e cloroquina como "remédios alternativos" para a covid. Acreditando estar imune com os medicamentos, Rosalvo foi ao shopping comprar os presentes de Natal para seus filhos e netos, mas não chegou a entregá-los porque foi internado com covid antes da data.

"Meu pai, esclerosado, tomou e foi pro shopping comprar presentes de Natal porque acreditava que estava imune. Comprou, mas não chegou a distribuí-los", relata Carlos. De todas as atitudes de Bolsonaro durante a pandemia, para o professor, a mais revoltante era o ex-presidente passar a ideia de que tomando a "medicação alternativa", as pessoas estariam imunes. 

Cinco anos depois, o sentimento que ainda permanece no filho é o da injustiça diante da impunidade aos crimes de Bolsonaro durante a pandemia. Ele lamenta também que, mesmo que as atitudes do ex-presidente em defesa dos "medicamentos alternativos" tenham sido preponderantes para a morte de seu pai e tantas outras pessoas, esses fatores são considerados "sutis" não vão a julgamento. "O chefe da Nação pode não ser um especialista em cada situação, mas deve ter responsabilidade já que o que fala reverbera", diz Carlos. 

O professor ainda acrescenta que as atitudes de Bolsonaro resultaram em um negacionismo que ainda perdura na sociedade e impacta até hoje no combate de outras doenças. Para ele, ainda levará tempo para que as pessoas novamente enxerguem o perigo do negacionismo e voltem a confiar na ciência, e Bolsonaro deve ser julgado também por isso. 

'A próxima vítima pode estar entre nós'

A compositora Cristina Lange também relata seu sofrimento com a perda de duas pessoas muito próximas: sua prima, Dora Luca, e sua amiga, Eliana Avellar. As duas faleceram esperando a vacinação no começo de 2021 - a primeira oferta de vacinas contra a Covid-19 foi feita pelo Instituto Butantan ao Ministério da Saúde em 30 de julho de 2020.

Ela ainda lamenta que, apesar disso, ainda há negacionistas em parte de sua família até hoje. "Me deixa triste, pois não aprenderam com a tragédia acontecida com tantos. Falta empatia à dor humana, o que é próprio de pessoas que apoiam um regime de extrema direita", diz Cristina. 

A compositora declara que ainda tem esperança que Bolsonaro seja condenado não só pelos crimes pelos quais é réu no STF, mas também por seus crimes durante a pandemia. Cristina espera que a Justiça seja feita pelos entes queridos de tantas pessoas que não estão aqui.

Por fim, Cristina alerta para a importância de pesquisar sobre a postura de seus candidatos  "em relação ao próximo e suas necessidades" durante as eleições. "A próxima vítima pode estar entre nós", conclui ela. 

'Foram 716.238 amores de alguém'

A professora aposentada Solange Vieira, que perdeu seu marido, Adilson Augusto da Silva, 62, com quem viveu por 33 anos, também se junto ao misto de revolta e esperança durante o julgamento de Bolsonaro. Ela relembra que, devido à omissão do ex-presidente durante a pandemia e o menosprezo pela gravidade da situação, ela perdeu "a pessoa que escolheu para ser seu companheiro por toda sua existência". 

Solange relembra que ficou perplexa e horrorizada com a falta de respeito e empatia do ex-presidente com a pandemia e as vítimas que se multiplicavam pelo país.

A professora ainda completa que em nenhum momento Bolsonaro se solidarizou com as famílias que perderam seus entes queridos. "Muito pelo contrário, era deboche atrás de deboche."

Por fim, ela diz espera que Bolsonaro vá para a cadeia e pague por "sua omissão no enfrentamento da pandemia, quando desprezou orientações com amparo na ciência, expondo a população ao risco de infecção em massa". "Quero que as máscaras dele e dos filhos caiam e se tornem inelegíveis pelo resto de suas vidas. O que falta mesmo é ele ser preso", diz Solange. 

'Tornozeleira é pouco'

Veja também relatos feitos por parentes e amigos nas redes sociais, no dia em que Bolsonaro colocou a tornozeleira. 

Os crimes de Bolsonaro durante a pandemia 

Em 12 de março de 2020, ocorria a primeira morte por Covid-19 no país. A partir dali, os números se multiplicariam mais de mil vezes e o Brasil bateria o recorde de 3 mil mortes por dia. A primeira vítima faleceu no Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio, na cidade de São Paulo. Também a partir daquele dia, o país começaria a viver um dos períodos mais cruéis e sombrios da sua história: um presidente negacionista faria de tudo para evitar que a população fosse vacinada contra a doença ou ao menos tivesse condições de receber tratamento digno. 

Bolsonaro se recusou a utilizar máscara, menosprezava a importância da vacinação, incentivava as pessoas a não permanecerem em casa e ainda estimulava o uso de medicamentos sem efeito para a proteção contra a doença, como a cloroquina. Além disso, o ex-presidente debochava de pessoas morrendo sufocadas e as mandava "parar de mimimi" enquanto suas vidas eram ceifadas em hospitais completamente lotados e sem estruturada para tratar seus pacientes. 

Apesar de tudo isso, Bolsonaro jamais foi julgado pelos seus crimes durante o período, que chegaram a ser apontados na CPI da Pandemia. Nove, ao todo: prevaricação; charlatanismo; epidemia com resultado morte; infração a medidas sanitárias preventivas; emprego irregular de verba pública; incitação ao crime; falsificação de documentos particulares; crime de responsabilidade e crimes contra a humanidade, segundo o relatório apresentado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) em outubro de 2021. O presidente, porém, sequer foi indiciado pelos crimes. 

Hoje, Bolsonaro é julgado por tentativa de golpe no STF e está prestes a ser condenado a mais de 40 anos de prisão, mas os familiares e pessoas próximas a vítimas de Covid-19 ressaltam que, antes de todos os crimes cometidos na trama golpista, o ex-presidente já deveria ter sido julgado e condenado pelas mortes que foi responsável durante a pandemia.

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