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‘Não tem a menor chance de um governo Bolsonaro que priorize a educação’, diz Neca Setubal

"NA EDUCAÇÃO, A GENTE RETROCEDEU DEZ ANOS"

13/10/2022 - 10:18 | Atualizada em 13/10/2022 - 17:57

Redação

‘Não tem a menor chance de um governo Bolsonaro que priorize a educação’, diz Neca Setubal

Foto: Divulgação

Maria Alice Setubal, de 71 anos, umas das herdeiras do grupo Itaú e reconhecida por anos de atuação na educação pelo terceiro setor, diz que não é “petista de carteirinha” mas resolveu declarar voto a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições. Para ela, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), que tenta a reeleição, é responsável por um “desastre” no ensino público do País. “Quem entende de educação e não está preocupado em defender uma pauta moral sabe que ele não fez nada, nem antes nem durante a pandemia. E na hora que você não faz nada em educação, você retrocede. A gente retrocedeu 10 anos.”

Neca, como é conhecida, preside o conselho da Fundação Tide Setubal e é histórica apoiadora de Marina Silva (Rede), eleita deputada federal no dia 2. A ligação das duas fez com que ela se tornasse alvo de ataques do PT durante as eleições de 2014, o que diz ter sido “muito agressivo e injusto”, mas que considera “página virada”. Na segunda-feira, 17, vai estar ao lado de Marina, Simone Tebet (MDB) e Armínio Fraga em evento para conversar com empresários que relutam em dar voto a Lula. Para Neca, o candidato precisa deixar mais claras suas propostas em todas as áreas, não só na educação. “Durante o primeiro turno, ele falou muito olhando para o retrovisor, o que ele fez, e falou muito pouco do que ele vai fazer.”

Representante de uma das mais ricas famílias do Brasil e filha de Olavo Setubal, ela afirma que sente “tristeza profunda” ao ver declarações de voto a Bolsonaro entre a elite. “É uma incapacidade de perceber o que para mim é muito óbvio, que todos ganham com uma sociedade com menos desigualdade. Mas tem pessoas que não querem ser iguais, elas querem manter as diferenças.”

Para ela, que se formou em ciências sociais, com mestrado em ciência política e doutorado em psicologia da educação, o País precisa de um governo que olhe para as desigualdades educacionais e as diferenças territoriais, que invista na formação dos professores, alfabetização, ensino técnico e bolsas de mestrado e doutorado. Agendas que não fazem parte do governo atual porque, na opinião de Neca, Bolsonaro “não acredita no sistema público de ensino”. ”E eu acredito totalmente. É a única forma de conseguirmos garantir uma educação de qualidade para todas as crianças no Brasil. Não tem a menor chance de um governo Bolsonaro priorizar a educação.”
Confira a entrevista:
Durante as eleições, a educação nunca é o assunto que mais aparece. Mas o ensino continua sendo um dos grandes problemas do País. Por quê?

Os políticos todos falam que educação é prioridade, aí já mudam de assunto em seguida. Eu acho que a sociedade brasileira não optou por um modelo baseado na educação. Nosso modelo foi baseado no consumo, PSDB e PT fizeram um modelo de desenvolvimento baseado no consumo, não foi exatamente na educação. Então o que eu espero é que realmente um governo Lula traga o meio ambiente e a educação para o centro das políticas. Não é só não desmatar, é uma transição para uma economia de baixo carbono e a educação colada com essa visão. Que educação a gente precisa para um país que está buscando fazer essa transição? Como vai ser o ensino técnico, a formação para as profissões? Também precisamos trabalhar com equidade, ter na periferia os melhores professores, materiais melhores e menos alunos, como acontece no Canadá, na Finlândia. Aqui é ao contrário. Na periferia, os professores são temporários, tem mais aluno. Tem que mudar essa lógica. A gente também tem programas maravilhosos, leis incríveis, só que na hora de implementar é um desastre. É preciso levar em contas as diferenças, os territórios, não adianta ter a mesma implementação de educação que está dando certo em Sobral. Não vai dar certo na periferia de São Paulo e no Amazonas.

Como a senhora analisa os governos Lula e Bolsonaro na educação?

Houve muitos méritos na educação durante o governo Lula, especialmente com Fernando Haddad (ministro da Educação, entre 2005 e 2012), que fez uma continuação em relação ao Paulo Renato Souza (ministro da Educação de FHC, entre 1995 a 2002). Foi ampliada a questão da valorização do magistério, das universidades públicas e criou-se o Ideb (indicador nacional de qualidade da educação). Eu já estou na educação desde os anos 90, a gente fazia uma avaliação quase intuitiva e o Ideb tornou possível uma base de comparação mais científica e voltada para aprendizagem. Foram passos muito importantes para a educação, quando o buraco era muito mais fundo. A gente estava completamente defasado comparado a todos os países, inclusive da América Latina. Fernando Henrique avançou, Haddad deu continuidade e saltos. Obviamente a gente ainda tinha problemas graves de qualidade na educação, mas nos últimos quatro anos, o retrocesso foi enorme. Não teve nenhuma política educacional que se sustentou, foi absolutamente ausente na pandemia. Realmente…..eu estou tentando achar outra palavra, mas foi um crime.

https://www.estadao.com.br/politica/nao-tem-a-menor-chance-de-um-governo-bolsonaro-que-priorize-a-educacao-diz-neca-setubal/


 
 

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