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A energia eólica é realmente competitiva no Brasil?

15/05/2012 - 00:11

Luciano Losekann

Desde a implantação do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), a energia eólica tem experimentado uma trajetória de forte difusão no Brasil. Após ser a fonte de geração com maior participação no programa (1.422 MW), a energia eólica passou a ter participação crescente nos leilões de expansão do sistema elétrico brasileiro.

Primeiramente, parques eólicos foram selecionados em leilões orientados para fontes com menores impactos ambientais (leilões de reserva – LER  e leilões de fontes alternativas – LFA). Posteriormente, no leilão de expansão com antecedência de três anos (A-3) ocorrido em 2011, aproveitamentos eólicos venceram o certame competindo diretamente com as demais fontes de geração.

Por intermédio do Proinfa e dos leilões, já foram contratados 7 GW de capacidade de geração eólica no Brasil. Desse total, 1,4 GW está em operação. O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) considera que em 2020 a capacidade instalada de centrais eólicas no Brasil alcançará 11 GW.

Como a tabela I ilustra, essa trajetória foi acompanhada da redução do preço médio da energia eólica negociada nos leilões e do aumento do fator de capacidade dos projetos de parques eólicos.

Tabela I

 

CAPACIDADE

FATOR DE

PREÇO

 

MW

CAPACIDADE %

R$/MWh

PROINFA

1.422

37%

270,32

LER 2009

1.806

43%

148,40

LER 2010

528

51%

122,69

LFA 2010

1.520

43%

134,13

A-3 2011

1.068

45%

99,48

LER 2011

861

50%

99,54

Fonte: Elaboração Própria. Dados CCEE

A competitividade da energia eólica no Brasil demonstrada nos leilões impressionou até mesmo especialistas setoriais, pois não é observada em outras experiências. Nos países em que a energia eólica se desenvolveu de forma mais significativa, os subsídios são bastante significativos. Alguns fatores podem explicar a vantagem da produção brasileira de energia eólica, como ventos mais favoráveis – principalmente no nordeste brasileiro -, complementação com a geração hidrelétrica e possibilidade de “estocagem indireta” de energia através dos reservatórios das usinas hidrelétricas. Essas características permitem ao Brasil lidar melhor com a intermitência da geração eólica, que é o principal limitante de sua difusão em sistemas predominantemente termelétricos.

O fator de capacidade considerado nos projetos brasileiros é substancialmente mais elevado do que a experiência internacional. Segundo a tabela II, o fator de capacidade médio observado nos dez países de maior capacidade de geração eólica é de apenas 21%. Ou seja, metade do fator médio considerado em projetos no Brasil.

Tabela II

País

2008

2003-2007

Estados Unidos

24%

26%

Alemanha

19%

18%

Espanha

22%

25%

China

12%

-

Índia

18%

-

Itália

16%

19%

França

19%

22%

Reino Unido

30%

26%

Portugal

23%

23%

Dinamarca

25%

23%

Fonte: Elaboração Própria. Dados 2008: Wikipedia. Dados 2003-07: Boccard (2009).

Boccard (2009) aponta que há uma tendência de superestimação do fator de capacidade de parques eólicos projetados em relação ao que é observado no caso europeu. Segundo o autor, enquanto as estimativas do fator de capacidade da energia variam em um intervalo entre 30 a 35%, os valores observados da razão da energia produzida e da capacidade instalada são inferiores a 21% no período 2003-2007. O autor enfatiza que dessa forma, os custos são aumentados em dois terços e a redução de emissões decorrente da instalação dos parques eólicos é 40% inferior à planejada.

Os dados de geração observada nos parques eólicos brasileiros, publicados pelo ONS nos boletins mensais de geração eólica, sugerem que fenômeno parecido pode ocorrer no Brasil. A tabela III apresenta os fatores de capacidade estimados e observados das usinas eólicas operadas centralizadamente pelo ONS. O valor observado corresponde à razão entre a geração média observada[1] e a capacidade de geração das usinas. Na região sul, o fator de capacidade observado é idêntico ao projetado, 31% na média. No entanto, na região nordeste, onde as usinas contam com fator de capacidade projetados mais elevados, os valores observados são bastante inferiores aos projetados. Na média, o fator de capacidade projetado é de 42% e o observado de 32%. Ou seja, as usinas eólicas do nordeste produziram 25% menos do que foi projetado (e contratado).

Tabela III

Usinas

Região

Fator de Capacidade

Projetado Observado
OSÓRIO

S

32,0%

29,1%

DOS ÍNDIOS

S

30,0%

28,9%

SANGRADOURO

S

33,0%

31,7%

CIDREIRA I

S

32,5%

33,7%

CHATO I

S

26,5%

27,6%

CHATOII

S

26,5%

29,1%

CHATOIII

S

37,0%

39,4%

RIO DO FOGO

NE

34,0%

31,5%

PRAIA FORMOSA

NE

39,0%

26,7%

ICARAIZINHO

NE

43,0%

42,1%

CANOA QUEBRADA

NE

43,5%

34,5%

BONS VENTOS

NE

43,8%

32,2%

ENACEL

NE

43,5%

27,7%

VOLTA DO RIO

NE

47,0%

33,3%

PRAIA MORGADO

NE

50,0%

25,5%

ALEGRIA I

NE

32,0%

21,8%

M SECO 3

NE

48,8%

38,5%

M SECO 2

NE

46,2%

41,3%

M SECO 1

NE

47,3%

38,3%

M SECO 5

NE

50,4%

29,4%

MÉDIA S  

31,4%

31,4%

MÉDIA NE  

42,3%

31,7%

Fonte: Elaboração própria. Dados: ONS.

Ainda que o período de observações seja limitado para as usinas que começaram a operar em 2010 e 2011, alguns fatos são marcantes. Nenhuma das 13 usinas eólicas da região nordeste alcançou o fator de capacidade previsto. O fator de capacidade alcançado é quase metade do projetado em algumas usinas, como Mangue Seco 5 (valor observado 42% inferior ao projetado) e Praia Morgado (49% inferior ao projetado).

As novas usinas eólicas que foram selecionadas através de leilões e que devem entrar em operação nos próximos anos contam com estimativas de fatores de capacidade mais elevadas que as usinas que já estão operando. Se confirmada a tendência apontada por Boccard (2009) e essas usinas não alcançarem o nível de operação projetado, as condições que propiciaram a difusão da energia eólica em bases competitivas no Brasil são colocadas em xeque.

Com menores fatores de capacidade, as eólicas são relativamente mais caras. Considerando a diferença observada no nordeste como parâmetro, as eólicas seriam 33% mais caras do que o seu valor nos leilões. Em termos gerais, o impacto seria um maior custo operacional que o previsto no sistema elétrico e uma distorção na seleção de tecnologias, pois outras fontes poderiam ser selecionadas. Para os empreendedores, fatores de capacidade inferiores aos projetados podem implicar em prejuízos. Segundo as regras dos leilões, eventuais diferenças entre energia gerada e projetada podem ser compensadas ao longo dos anos. Mas se o diferencial anual é superior a 10%, há previsão de multa e aquisição de energia para suprir a diferença no mesmo ano.

Outro problema que as usinas eólicas têm enfrentado no Brasil é cumprimento do cronograma de obras. Segundo o acompanhamento da Aneel, apresentado na tabela IV, dos 6,4 GW de expansão de geração eólica até 2015 apenas 24% não enfrenta qualquer problema para a entrada em operação. 70% da expansão é classificada em “amarelo” pela Aneel, indicando possíveis atrasos no andamento das obras ou na obtenção de licença.

Tabela IV

Situação

MW

 
Sem impedimentos

1.540

24%

Com impedimentos

4.524

70%

Graves problemas

377

6%

Fonte: Aneel.

Esses problemas não inviabilizam a difusão de energia eólica, mas, certamente, colocam questionamentos quanto à trajetória de êxito competitivo observada até recentemente. Como a fonte eólica tem vantagens ambientais que não são incorporadas economicamente no Brasil, o sobre-custo pode se justificar. No entanto, é essencial que o fator de capacidade seja acompanhado para que os mecanismos de incentivo sejam desenhados de forma adequada e a expansão ocorra em bases sustentadas.

*Luciano Losekann é pesquisador do Grupo de Economia de Energia do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GEE/UFRJ)

(Nota da Redação: artigo publicado no Infopetro – http://infopetro.wordpress.com -, blog do GEE/UFRJ)

Referências:

ANEEL (2012), Acompanhamento das Centrais Geradoras Eólicas. Abril 2012. Disponível em: www.aneel.gov.br.

BOCCARD, NICOLAS (2009), Capacity factor of wind power realized values vs. estimates. Energy Policy, 37. Pgs. 2679–2688.

ONS (2012), Acompanhamento mensal da geração de energia das usinas eolielétricas com programação e despacho centralizados pelo ONS. Vários números. Disponível em: www.ons.org.br.


[1] Os dados dos boletins do ONS cobrem o período de janeiro de 2007 a março de 2012. No entanto, os parques instalados mais recentemente contam com menor número de observações.

 

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