Sexta-feira, 4 de setembro de 2026
informe o texto

Artigos | Juacy da Silva

ELEIÇÕES 2026 E OS DESAFIOS AMBIENTAIS DE MATO GROSSO

22/08/2026 - 09:10

Foto: Arquivo pessoal

Em sua recente viagem apostólica ao Continente Africano, entre 18 e 21 de abril, em Luanda (Angola), o Papa Leão XIV assim se expressou: “É fundamental que, na construção de um desenvolvimento que una crescimento econômico com justiça social, com sustentabilidade e com foco na dignidade de cada pessoa” (VATICANO, 2026).

Em minha opinião, esta exortação também se dirige a nós no Brasil inteiro e, principalmente, no que está acontecendo em Mato Grosso há décadas, em que o processo de crescimento econômico do estado tem contribuído para o enriquecimento de uns poucos, uma minoria e para a exclusão, a fome, a miséria, a violência e as injustiças da grande maioria da população.

É sobre isto que precisamos e devemos refletir de forma mais profunda e crítica, principalmente neste e em outros períodos eleitorais.

Em reunião – café da manhã – realizada no último dia 08 deste mês de agosto, quando estiveram presentes 25 pessoas, representando diversos setores, segmentos e entidades, dialogamos sobre a necessidade de os candidatos que concorrem aos cargos de deputados federais e estaduais, a senadores e a governador de Mato Grosso incluírem em suas propostas de ação política futura as questões, problemas e desafios ambientais existentes em nosso Estado.

Diante da crise climática e de suas consequências, não podemos continuar aceitando a omissão de nossos atuais e futuros governantes, tendo em vista que a própria Constituição Federal, em seu artigo 225, estabelece que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” (BRASIL, 1988).

Esses desafios afetam todos os três biomas existentes em Mato Grosso e os centros urbanos do estado.

Os números comprovam a gravidade da situação, não se trata apenas de opinião, vejamos:1) O Pantanal está secando e queimando e vai virar deserto. De acordo com estudos científicos com base no monitoramento do MapBiomas, o Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nas últimas quatro décadas, entre 1985 e 2025. A área alagada despencou de 19 mil km² para cerca de 3,8 mil km². No mesmo período, mais de 60% de seu território foi atingido por incêndios, cerca de 9 milhões de hectares acumulados, e perdeu 1,7 milhão de hectares de vegetação nativa por desmatamento (MAPBIOMAS, 2025)

2). Mato Grosso está perdendo sua cobertura vegetal e respirando fumaça: Entre 1985 e 2025, o desmatamento e as queimadas em Mato Grosso reduziram a cobertura vegetal nativa de 90% para 61% e acumularam 45,1 milhões de hectares queimados.

Essa degradação gerou muita poluição do ar por material particulado fino (PM2,5), disparando internações por problemas respiratórios e cardiovasculares e gerando custos milionários ao SUS (MAPBIOMAS, 2025; INPE, 2025).

Cerca de 70% das internações por problemas respiratórios em períodos críticos nos estados da Amazônia Legal e Cerrado — incluindo Mato Grosso — apresentam forte correlação com a poluição por fumaça de queimadas (FIOCRUZ, 2024).

3). A poluição do ar mata mais que a violência contra as mulheres. Mato Grosso registra uma média anual de aproximadamente 1.414 mortes associadas à poluição do ar. Dados do Ministério da Saúde indicam que houve um total de quase 20 mil óbitos (19.804) atribuídos à poluição atmosférica no estado em um período de 14 anos (BRASIL, 2024).

Para se ter a dimensão desta tragédia, Mato Grosso registra uma média de 50 a 60 mortes de mulheres por feminicídio a cada ano. Em 2025, foram 54 vítimas oficiais, mantendo o estado como campeão nacional de feminicídios, proporcionalmente (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2025).Ou seja, o número de pessoas que morrem por ano devido à poluição do ar (1.414) representa 24 vezes mais do que o número de feminicídios que ocorram por ano em Mato Grosso.

Mesmo sendo o Estado campeão nacional de feminicídio, a poluição do ar é mais letal do que a sanha dos assassinos de mulheres.

Sempre é bom relembrarmos o que disse/escreveu o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’: “tudo está interligado, nesta Casa Comum” e “o grito da terra é também o grito dos pobres e excluídos” (FRANCISCO, 2015).

Esses desafios ambientais afetam todos os tres Biomas existentes em Mato Grosso: Pantanal; Cerrado e Amazônia Mato-grossense, bem como a grande maioria dos Centros Urbanos, principalmente o maior aglomerado urbano de nosso Estado (Cuiabá e Várzea Grande) e Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá, onde residem aproximadamente 30% da população total do Estado.

Diante de tudo isso, foi definido, com aprovação de todos os presentes,  que deveriamos realizar um evento presencial para aprofundarmos e ampliarmos este diálogo e, ao mesmo tempo, convidar pessoas com conhecimento técnico e prática nesta área, para que possamos aprofundar este nosso pleito, a ser encaminhado tanto aos candidatos, muitos dos quais já detém mandatos, bem como aos partidos políticos.

Para tanto a Pastoral da Ecologia Integral da Arquidiocese de Cuiabá,  a Articulação da referida pastoral para Mato Grosso e Região Centro Oeste, em parceria com a Associação Cuiabá mais Verde estão ultimando as providências para a realização de um evento presencial, a ser realizado em 22 de Setembro próximo em Cuiabá.

`A medida que tais providências e articulações forem se desenvolvendo iremos  compartilhando informações para que os participantes do evento possam contribuir na elaboração de um documento a ser endereçado aos  Candidatos e Partidos Políticos.

No decorrer deste tempo que antecede o Evento “Eleições 2026 e os desafios ambientais de Mato Grosso”, todas as pessoas que assim desejarem,  podem contribuir com análises, identificação dos problemas e desafios socioambientais, bem como sugestões de ações a serem incluídas em políticas públicas nesta área.

Todos reconhecemos que Mato Grosso passa por um processo de crescimento econômico pujante ostentando os maiores índices de aumento da produção e exportações, principalmente no setor agropecuário em relação a todos os demais estados brasileiros.

No entanto, este processo tem estimulado e promovido uma enorme concentração de renda, riqueza, propriedades, oportunidades, bem como contribuído, também, para um passivo ambiental impagável, representado pela degradação ambiental, decorrente do desmatamento, das queimadas,  da mineração e garimpos ilegais, da grilagem de terras públicas e privadas, pela invasão de territórios indígenas, por conflitos fundiários, uso abusivo de mercúrio, agrotóxicos,  destruição das nascentes, da biodiversidade animal e vegetal,  alteração do regime das chuvas, poluição das águas, dos solos e do ar, afetando, sobremaneira a saúde das pessoas, principalmente de trabalhadores rurais, das crianças e das pessoas idosas.

Em relação aos desafios ambientais urbanos não  podemos esquecer que, principalmente em Cuiabá e  Várzea Grande a expansão urbana tem ocorrido de forma totalmente caótica, diante da omissão e morosidade dos poderes públicos,  gerando  “bairros”  sem infraestrutura,  como falta de saneamento básico, gestão incorreta dos resíduos sólidos/lixo,  falta de arborização urbana, conflitos fundiários urbanos, violência aberta, fortalecimento da presença do crime organizado, poluição do ar,  dos córregos  e dos rios, afetando diretamente o Pantanal, que corre sério risco de secar dentro de poucas décadas, transformando-se em um bioma totalmente improdutivo.

É neste sentido que urge  alterar este modelo de crescimento econômico irracional, predatório, desumano e buscar um novo rumo para que nosso Estado possa se desenvolver de forma sustentável, integrado, integral, com justiça social, equidade e com respeito `a dignidade da pessoas e  `das atuais e futuras gerações.

Este é o foco de nossas preocupações e de nossas ações como cidadãos, cidadãs, contribuintes, eleitores e eleitoras, fazendo jus ao princípio constitucional de que “todo o poder emana do povo...”.

Isto tem um nome: Cidadania ativa, consciente e participativa, através do voto livre, secreto e democrático, em defesa da soberania popular, da soberania nacional e integridade de nosso território nacional.

Juacy da Silva

Juacy da Silva
Professor universitário, fundador, titular e aposentado UFMT, sociólogo, mestre emsociologia, colaborador de alguns veiculos de comunicação. Email profjuacy@yahoo.com.br  twitter@profjuacy
ver artigos
 

Informe seu email e receba notícias!

Sitevip Internet