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Checadores de fatos dos cinco continentes são indicados ao Nobel da Paz

JORNALISTAS CHECADORES

23/01/2021 - 11:11

Abraji

Checadores de fatos dos cinco continentes são indicados ao Nobel da Paz

Foto: Reprodução/Twitter

Rede Internacional de Checagem de Fatos (IFCN, na sigla em inglês), que reúne 79 organizações dedicadas à checagem de fatos em 51 países, foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz. A nomeação foi feita pela deputada norueguesa Trine Skei Grande, ex-ministra da Educação e da Cultura em seu país.

Comitê Norueguês do Nobel recebe indicações até o dia 31.jan.2021, quando inicia o processo de seleção dos cinco finalistas, divulgados em mar.2021. A cerimônia de premiação é realizada todos os anos em dezembro. Já foram laureadas figuras históricas como Martin Luther King, Nelson Mandela, Malala Yousafzai, além de entidades como Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

A diretora-adjunta da IFCN, a brasileira Cristina Tardáguila, afirma que, antes da nomeação, 2020 foi um ano de muito trabalho para a entidade. Ela se orgulha em especial da CoronaVirusFacts Alliance - trabalho colaborativo que reúne 99 organizações (20 além das filiadas) de 77 países, 43 idiomas e 16 fusos horários para combater a desinformação sobre a pandemia de covid-19.

“Com toda essa diversidade, o projeto conseguiu alcançar um consenso para produzir checagens sobre a crise sanitária. Toda a produção dessas equipes foi organizada em uma planilha compartilhada, traduzida e republicada por outros membros”, diz Tardáguila.

A cooperação rendeu um banco de dados com mais de 10.300 verificações, que são distribuídas por chatbots em inglês, espanhol, português e hindi. Segundo a diretora-adjunta da IFCN, é um dos materiais mais acessados do Poynter Institute - prestigiada publicação norte-americana.

A CoronaVirusFacts Alliance conquistou um financiamento de mais de US$ 2 milhões pelo impacto de seu trabalho. E depois, foi eleita, entre mais de 180 concorrentes, pelo Paris Peace Forum - maior evento mundial de economia criativa - como um dos dez projetos a serem monitorados ao longo de 2021. “Somos mais fortes quando competimos menos”, sublinha a checadora, que fundou a Agência Lupa em 2015.

Desde 2019, a IFCN passa por uma grande expansão que vem garantindo relevância à prática do fact-checking. À época, a entidade visitou 16 países, sobretudo na América Latina e na Ásia, para formar novos checadores. Para o primeiro semestre de 2021, a entidade pretende treinar profissionais em 22 países, entre os quais Myanmar, Afeganistão e Iraque, marcando a presença da rede em zonas de conflito.

Segundo Tardáguila, o foco da IFCN continua na pandemia, agora acompanhando e revelando a desinformação sobre vacinas. “Já neste ano, pudemos ver exemplos muito graves das consequências da falta de informação de qualidade. Como os especialistas em informação, em geral, eu entendo o ataque ao Capitólio como fruto da desinformação, entre outras causas. Assim como são também as mortes por falta de oxigênio medicinal na capital amazonense, Manaus. Nesse cenário, a IFCN assume um papel fundamental.”
 

Na análise da diretora-adjunta da rede, a nomeação para o Prêmio Nobel da Paz, além de uma grata surpresa, representa um suporte aos fact-checkers. “Nosso trabalho está sob forte tensão, coibido por ameaças, bloqueios, difamação, ódio puro e duro mesmo. É um alento que a comunidade internacional apoie os profissionais de países como Filipinas, onde Maria Ressa foi detida de forma arbitrária, México, em que o presidente descredibiliza veículos como o Animal Político, e o próprio Brasil.”

Alvo frequente dos ataques do presidente Jair Bolsonaro e de seus apoiadores, a diretora-executiva e cofundadora de Aos Fatos - site de checagem que compõe a IFCN -, Tai Nalon, vai na mesma direção: “Há jornalistas checadores em todo o canto do mundo sob ameaça constante de governos e poderes constituídos por simplesmente indicarem o que é fato. Essa indicação demonstra a gravidade da situação e, felizmente, que existem autoridades atentas à importância do nosso trabalho”.

Por outro lado, Nalon afirma não acreditar em uma melhora no quadro da desinformação no Brasil enquanto as autoridades locais incentivarem o desenvolvimento de políticas públicas em mentiras. “A desinformação mais perniciosa tem essa natureza, e não há perspectiva de que isso vá mudar por aqui.”

Para Daniel Bramatti, ex-presidente da Abraji e editor do Estadão Verifica - outra organização filiada à IFCN -, em uma crise como a pandemia que o valor da boa informação fica evidente. “Não tenho dúvidas de que o bom jornalismo e a checagem de fatos ajudaram a salvar vidas e a evitar uma disseminação ainda maior do vírus. O lado triste é que muitas vezes nosso trabalho é menos amplificado do que as mentiras. O jornalismo enfrenta seu maior desafio em décadas com equipes reduzidas e sob ataque de grupos politicamente motivados. Qualquer manifestação de apoio é muito necessária e bem-vinda.”

Na visão do editor do Projeto Comprova - coalizão de 28 veículos liderada pela Abraji para investigar informações enganosas -, Sérgio Lüdtke, a indicação alerta ao mundo que a desinformação é um problema que se agrava e afeta as sociedades global e localmente. “Parece-me também uma homenagem à investigação jornalística, exercida com o maior rigor pelas agências de checagem, e ao sentido de colaboração entre veículos de comunicação, um caminho cada vez mais utilizado pelo jornalismo para dar vigor e relevância ao produto do nosso trabalho”.


Como fazer parte da IFCN

Qualquer organização noticiosa que tenha um braço de fact-checking pode pleitear uma filiação à Rede Internacional de Checagem de Fatos. Mas antes tem de passar por um crivo de qualidade. Primeiro, a empresa deve mostrar que existe e tem um site ativo. Passada essa fase, a IFCN escolhe um especialista em comunicação no país de origem da organização para analisá-la, como assessor independente.

A candidata passa para o próximo estágio, se cumprir os cinco princípios éticos da rede: transparência de financiamento, metodologia e fontes, além de uma política de correção pública efetiva e apartidarismo.

A avaliação final é feita pelo conselho da IFCN, composto por 11 checadores experientes. Todos têm acesso ao relatório e deliberam se a nova organização deve ou não fazer parte da rede.

Uma vez aprovada, a organização recebe um selo comprovando que segue os princípios éticos da IFCN que dura um ano. As organizações são reavaliadas, anualmente.

Os membros, além de encontrarem portas abertas com a rede, passam a receber acesso a um kit de ferramentas não acessíveis financeiramente a redações menores, via de regra. Ainda têm a oportunidade de aderirem a programas, como o Third Party Fact-checking do Facebook, que pode gerar renda. A anuidade da membresia custa cerca de US$ 200.

“É um grupo muito heterogêneo. São fusos e idiomas diferentes. Realidades políticas e midiáticas muito distintas. Faz parte a Full Fact, que conta com nobres que fizeram parte da Câmara dos Lordes, na Inglaterra, mas também, o Congo Check, que produz checagens na rua, porque o acesso à internet no país africano é muito caro. Nós temos o intuito de propiciar um espaço de troca de conhecimentos, de nivelar por cima”, conta Tardáguila.

 

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