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Inimigos aliados

20/09/2020 - 11:36 | Atualizada em 20/09/2020 - 11:37

Cristovam Buarque*

Está ficando visível uma aliança de interesses entre Bolsonaro e seus adversários eleitorais. A Rede Globo é chamada de “globolixo” pelos seguidores de Bolsonaro e pelos seguidores do PT. Eles têm a mesma posição, usam as mesmas palavras e passam a mesma intenção de enfrentar e enfraquecer a Rede Globo.

A Lava-Jato é outro inimigo comum. É como se lutassem com o mesmo propósito de desfazer a Lava-Jato e enfraquecer a luta contra a corrupção.

Da mesma forma, os dois lados que criticavam a Bolsa Escola quando ela era um instrumento educacional gerido pelo MEC, agora se unem em defesa de ampla transferência de renda sem condicionamentos.

De crítico radical, o presidente Lula passou a defender a Bolsa Escola, descaracterizando, porém, sua face educacional e transformando-a em um programa assistencial. Mudou até seu nome. Tirou do MEC sua gestão.

Bolsonaro continuou como duro crítico da Bolsa Família, e agora passa a considerá-la como eixo do seu projeto de reeleição. Assim, a ideia de um programa assistencial por transferência de renda estará tanto no programa do PT, quanto no de Bolsonaro.

Qual das duas propostas oferecerá maior valor, menos condicionalidades e atingirá o maior número de beneficiários? A disputa será travada nesses termos.

Os dois lados começam a se aliar também contra o Teto de Gastos. Bolsonaro ainda não explicita, mas age no sentido de desrespeitar a responsabilidade fiscal seguindo o discurso que caracteriza as esquerdas.

O PT foi contra a responsabilidade fiscal do Plano Real, mas Lula, uma vez presidente, não a desrespeitou. No governo Temer, o PT passou a se opor ao reequilíbrio das contas.

Bolsonaro nunca foi defensor de responsabilidade fiscal. Passou a ser à época de sua campanha, mas já dá sinais de que mudará o Guedes se o Guedes não mudar.

Ambos os lados, de olho nas eleições de 2022, defendem mais gastos sociais sem tirar recursos dos ricos, dos privilegiados, das mordomias, das isenções fiscais, do “andar de cima”.

No primeiro momento, a ala responsável, mas insensível socialmente do atual governo faz a esdrúxula proposta de tirar dos pobres para gastar com os ainda mais pobres.

Tal posição, em breve, dará lugar a outra, a da derrubada do Teto e do consequente aumento de gastos financiados por déficits e emissões de moeda. E assim se produzirá a aliança dos populismos de esquerda e de direita.

Bolsonaro e PT torcem um pelo outro, para que ambos cheguem ao segundo turno. Até lá, comportam-se como inimigos aliados.

*Ex-governador do Distrito Federal, ex-senador e ex-ministro da Educação.

 

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