Por: Cícero Henrique
Os gastos médios na campanha de reeleição dos atuais vereadores de Várzea Grande vão ficar muito próximos a tudo aquilo que, se eleitos, ganharão em salários ao longo do mandato, compreendido entre janeiro de 2013 e janeiro de 2017. Considerando os 15 salários anuais de R$ 7.000,00 ao longo de quatro anos eles receberão R$ 557.281,20. Já os custos para a reeleição dos atuais vereadores vão variar de R$ 100 mil a algo em torno de R$ 500 mil. A pequena fortuna será torrada nos próximos nove meses em um conjunto de ações que inclui contratação de cabos eleitorais, telemarketing, campanha on-line, produção de material de divulgação impresso e aluguel de carros, entre outras despesas. Na comparação entre o que os vereadores vão gastar e o que ganharão de salários ao longo do mandato, fica evidente que o que está em jogo vai muito além dos subsídios do cargo. O que leva os 13 em exercício a tentar a reeleição passa pelo poder de barganha com segmentos da sociedade, a capacidade de influir na administração municipal com a indicação de cargos, além da própria carreira política.
A corrida pelo financiamento já começou. Arranjar dinheiro não anda fácil. Os vereadores têm encontrado frequentemente as portas do empresariado fechadas. Não bastassem os recentes desgastes dos parlamentares, tráfico de influência e suspeita de favorecimento de parentes em pequenas licitações na Casa, os empresários têm mais de um motivo para não investir. Depois de escândalos de financiamento de toda ordem, caixa dois é um termo que poucos querem repetir. Não acabou, mas diminuiu muito. Financiar oficialmente também se tornou sinônimo de exposição não apenas com a vinculação da empresa às candidaturas, uma vez que as informações ficam disponíveis no site da Justiça Eleitoral, mas também porque há outras implicações. Ao conferir se os limites de financiamento face ao faturamento da empresa no exercício anterior estão sendo respeitados, a Justiça Eleitoral está interligada à Receita Federal, deixando as empresas mais sujeitas a um olhar diferenciado da fiscalização.
Gasto de vereadores depende do tamanho da base
Os custos variam. Vereadores que têm base concentrada em nichos do tipo categorias profissionais e igrejas e mantêm a ação política do mandato voltada para a clientela tendem a gastar menos. Mas a maior parte tem o eleitorado definido a partir de territórios – regiões da cidade – em que a competição eleitoral exige investimentos de campanha maiores para manter “acesa a chama” da memória do eleitor. Gastos maiores ainda são necessários quando o vereador tem a votação difusa pela cidade. Quanto maior a área a percorrer, mais pessoal e maior volume de material é requerido.
Bem antes de o calendário eleitoral permitir, as campanhas já estão nas ruas. Mas elas só se formalizam a partir de julho, quando os vereadores encaminham por mala direta a chamada “carta de apresentação”. Cada um faz em média 30 mil postagens, em que se apresentam, discorrem sobre a sua vida pregressa, os “feitos” e propostas apresentadas ao longo do mandato que se encerra. Ao final do texto, o inevitável pedido: “Espero poder continuar contando com o seu voto”. Ao lado das cartas, a ofensiva é lançada nas ruas: entre 100 mil e 200 mil de santinhos exibem a foto do candidato, o seu número, os apoios políticos e, no verso, a pequena biografia.
Banners, minidoors, carros de som com os jingles do tipo “esse faz”, equipe de campo para o corpo a corpo em visitas dirigidas, cartazes, adesivos, equipe para conceber e alimentar a campanha virtual nas redes sociais: a lista é grande. Quanto mais crescem os itens, mais caras as campanhas ficam.
O temor da fiscalização e consequente perda do mandato eletivo em caso de fraudes e de caixa 2 tem levado, a cada novo pleito, a maior precisão na apresentação das contas de campanha.
Caixa de campanha
O choro é livre. Mais do que nunca, os vereadores se queixam de dificuldades para fazer caixa de campanha. “Dinheiro está igual perna de cobra: ninguém vê, ninguém tem. Exceção às campanhas competitivas para prefeito, as de vereador passam os pires. Financiadores de campanha, depois do Mensalão, não existem mais”, reclama um vereador. Segundo ele, os empresários não recebem mais vereadores. “Já disputei quatro eleições e nunca vi uma situação tão ruim. Para captar recurso está muito difícil. E tem vereador que não guardou nada, não reservou nada, nem sabe o que vai fazer”, acrescenta. “Depois desta nova maneira de prestar conta exigida pela Justiça eleitoral, a coisa vai ficando mais difícil. Tem empresário que não quer se expor apoiando um candidato. Prefere investir no partido”, avalia ele, atribuindo às legendas a responsabilidade pelo financiamento dos candidatos.
Os mais previdentes e antigos de Casa iniciam o caixa da campanha no primeiro dia do mandato. Tem de tudo. Desde aquele que, segundo denúncias, acumula recursos retendo parte dos salários dos servidores comissionados, até os casos de vereadores sérios que em mandatos participativos acumulam doações de simpatizantes. Outros dizem que recorrem à ajuda de familiares.
O fato é que, embora nenhum deles admita publicamente e o discurso oficial seja ideológico – a defesa do interesse público – , o que os move é o desejo de dar continuidade à carreira política, as facilidades abertas pelo cargo, entre elas a possibilidade de contratação em cada gabinete em pessoal sem concurso público, verba indenizatória de R$ 15 mil ao mês para o custeio do mandato, além da influência política exercida sobre cargos da administração. Outro fator que leva vereadores a desejarem a reeleição é a interlocução que abrem com diversos segmentos importantes da sociedade, toda vez que propõem um projeto que mexem com interesses específicos.
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