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União
Terça-Feira, 15 de Janeiro de 2019, 11h:42

NAS ENTRELINHAS

João Doria já age e fala como pré-candidato a presidente em 2022 ou 2026

Marcelo Mariano

Reprodução

João Doria e Jair Bolsonaro

O PSDB não é mais o mesmo. Aquele partido fundado no final dos anos 1980 com princípios baseados na socialdemocracia europeia não existe mais. Tucanos históricos, como José Serra e Fernando Henrique Cardoso, estão com cada vez menos espaço dentro da sigla.

O movimento que tinha como objetivo levar o partido mais para a esquerda, o PSDB Esquerda Pra Valer — que já não era muito expressivo —, pode decretar o fim e o seus militantes devem procurar outras legendas.

Em 2018, o PSDB foi um dos partidos que mais sofreu nas urnas. Tinha a terceira maior bancada da Câmara dos Deputados e, agora, passará a ter a nona, com 29 parlamentares, o que significa uma redução de 25 deputados federais — em Goiás, a debacle também foi geral.

No Senado, os tucanos podem eventualmente conquistar a presidência da Casa, se o cearense Tasso Jereissati — que, a propósito, já falou sobre a possível criação de um novo partido — vencer a disputa. Mas isso não será suficiente para reerguer o PSDB, que elegeu o menor número de governadores desde 1990.

Dos três governadores eleitos — Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, Reinaldo Azambuja, do Mato Grosso do Sul, e João Doria, de São Paulo —, é o paulista quem deve tomar as rédeas do partido e, apesar de ter sido lançado na política por Geraldo Alckmin — que o bancou para prefeito de São Paulo em 2016 —, tende a tomar rumos diferentes do que o PSDB vinha tomando ultimamente.

Aliás, João Dória, que assumiu o governo estadual há poucos dias, já age e dá declarações típicas de quem mira a Presidência da República e deve ser o candidato natural do PSDB ao Planalto — em 2022 ou 2026, dependendo das cenários que se formarem daqui para frente.

Ex-ministros de Temer

No discurso após a posse de seu secretariado, o novo governador de São Paulo não se referiu aos escolhidos como um time, mas sim uma seleção. Dos 20 secretários, seis são ex-ministros do ex-presidente Michel Temer, além de Aloysio Nunes, que presidirá uma agência vinculada à Secretaria da Fazenda.

João Doria montou, portanto, uma equipe com capacidade de ocupar cargos do primeiro escalão do governo federal. Esta é, sem dúvida, uma ação que visa cacifar o tucano para a corrida presidencial. E, se for vitorioso, pode até mesmo fazer com que os hoje ex-ministros voltem a comandar ministérios.

Ex-ministros de Temer na gestão Doria:

  • Aloysio Nunes: de ministro das Relações Exteriores a presidente da Investe SP
  • Henrique Meireles: de ministro da Fazenda e a secretário da Fazenda
  • Rossieli Soares: de ministro da Educação a secretário de Educação
  • Sérgio Sá Leitão: de ministro da Cultura a secretário da Cultura
  • Alexandre Baldy: de ministro das Cidades a secretário de Transportes Metropolitanos
  • Vinicius Lummertz: de ministro do Turismo a secretário de Turismo
  • Gilberto Kassab: de ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações a secretário da Casa Civil

Falas

Algumas falas de João Doria durante o discurso no Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo paulista, indicam que o tucano governará o Estado de olho em uma eventual candidatura a presidente — ele disse, por exemplo, que o povo de São Paulo tem pressa, assim como o Brasil.

Outra declaração que chamou a atenção se deu quando o governador comentou sobre a presença de Henrique Meirelles em seu secretariado. “Chamei o Meirelles”, frisou, em referência ao slogan de campanha do economista goiano, que concorreu à Presidência nas últimas eleições.

João Doria ressaltou que, se São Paulo cresce economicamente, o Brasil também cresce — e, naturalmente, o governador paulista se credencia como candidato a presidente.

Além disso, o tucano criticou o PSDB e afirmou que não terá apego ao passado a fim de fazer com que o partido se sintonize com a vontade da sociedade. “Se souber fazer isso [se sintonizar] em São Paulo, saberá fazer também no Brasil.”

“O povo de São Paulo tem pressa. O Brasil, também”

“Se São Paulo crescer, o Brasil cresce também”

“O PSDB não vai virar as costas para os brasileiros […] O PSDB vai mudar para [se] sintonizar [com] a realidade do Estado de São Paulo. Se souber fazer isso em São Paulo, saberá fazer também no Brasil”

João Doria, governador de São Paulo, durante discurso no Palácio Bandeirantes

Cenários

Na campanha, João Doria apoiou a candidatura do presidente Jair Bolsonaro e, uma vez empossado, reafirmou que trabalhará junto ao governo federal ao fazer com que o PSDB “saia de cima do muro”.

O novo presidente do Brasil já deu declarações contrárias à reeleição. Se Jair Bolsonaro não tentar se reeleger, pode apoiar João Doria. Se o governo federal não estiver bem em 2022, o governador de São Paulo deve ser candidato mesmo assim, mas tentando se desassociar da atual gestão.

Caso o governo de Jair Bolsonaro seja bem-sucedido e o presidente busque a reeleição — ou apoie outro candidato, como um de seus filhos, por exemplo —, João Doria pode tentar se reeleger governador e esperar mais quatro anos para se candidatar ao Planalto — se e o governo federal for bem o capitão reformado do Exército quiser mais um mandato, o governador de São Paulo dificilmente conseguirá se eleger presidente já nas próximas eleições.

Cenário 1: Governo federal vai bem, Jair Bolsonaro não é candidato à reeleição e apoia João Doria

Cenário 2: Governo federal vai mal e João Doria é candidato a presidente contra Jair Bolsonaro, tentando se desassociar da atual gestão

Cenário 3: Governo federal vai bem, Jair Bolsonaro é candidato à reeleição — ou apoia outro nome, como um de seus filhos, por exemplo — e João Doria espera para tentar a Presidência em 2026, com ou sem o apoio do atual presidente

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