Segunda-Feira, 12 de Novembro de 2018

Brasil

Sábado, 07 de Julho de 2018, 10h:52

NOVA POLÍTICA

Movimento prepara novas lideranças para ocupar espaços no Legislativo

Fernanda Garcia

Reprodução

Com integrantes do PSol ao PSDB, o RenovaBR se classifica como suprapartidário

Renovação é a palavra de ordem destas eleições. Em tempos nos quais o descrédito em relação à política vocifera em tons mais enérgicos, o discurso precisa adaptar-se às insatisfações do eleitor, que, não raro, encarna o indivíduo que é “contra tudo o que está aí”. Nesse cenário, crescem iniciativas que não são vinculadas a nenhum partido e não se classificam como tal, mas que buscam atuar diretamente na política. Entre elas está o RenovaBR, que recruta e capacita lideranças que tenham potencial para trabalhar em espaços de poder. Em Goiás, seis nomes foram selecionados e preenchem a lista de pré-candidatos a deputado federal e estadual que foram preparados pelo movimento: Alano Queiroz (Novo), Edwal Portilho, o Che­quinho (MDB), Desirée Peñalba (DEM), José Frederico (Rede), Rafael Lousa (PSDB) e Capitão Tarley (sem partido, por enquanto, em razão de ser militar da ativa).

O RenovaBR foi criado em outubro de 2017 e concebido em meio ao, senão nascimento, mas recente fortalecimento de movimentos orientados por uma frustração quanto ao sistema político. “Desde junho de 2013 estamos acompanhando um crescente interesse e engajamento da população, com vários movimentos da sociedade civil despontando”, afirma Izabella Mattar, diretora executiva do RenovaBR. No manifesto assinado pelo grupo, intitulado “Nosso país, nossa política”, é evidente seu propósito: “Faz tempo que a gente quer renovar a nossa política, mas chegam as eleições e parece que a política não quer ser renovada pela gente. São sempre os mesmo rostos”.

“A atual estrutura política beneficia apenas pequenos grupos”, afirma a pré-candidata Desiree Peñalba

No decorrer destes 30 anos de Constituição, os grandes partidos firmaram-se como lugares em que ideias e lideranças são construídas. No entanto, talvez por revelarem-se como ambientes excludentes ou como organizações a serviço de indivíduos tradicionais e institucionalizados no poder, surgem novos métodos de organização. “Existe uma desmotivação em relação à política que acarretou no aparecimento desses movimentos? Sim. Mas a causa comum é o problema com a atual estrutura política que beneficia apenas pequenos grupos”, diz a pré-candidata a deputada estadual Desirée Peñalba.

Sem negar o sistema partidário, mas com algumas ressalvas quanto ao desvirtuamento de sua estrutura, grupos como o RenovaBR aparecem com outra tendência de funcionamento: o suprapartidarismo. De acordo com o doutor em Ciência Política Pedro Mundim, professor da Universidade Federal de Goiás, analisando terminologicamente, o suprapartidarismo “coloca-se em um plano superior aos partidos políticos tradicionais ou que existam em determinado local”. Conforme Izabella Mattar, o RenovaBR difere-se de um partido porque é uma iniciativa de formação política que não é pautado pelos valores de determinada legenda. “A gente quer criar um ambiente de mesa de centro. Construir juntos, debater, olhar para o futuro. E independentemente de suas legendas partidárias”, explica.

Como funciona

O RenovaBR, iniciativa do empresário Eduardo Mufarej, opera como uma escola de formação política. Segundo Izabella, mais de 4 mil pessoas de todos os Estados se inscreveram entre outubro e novembro do ano passado. “Os inscritos passaram por etapas de teste online, vídeos de apresentação pessoal, entrevistas, banca avaliadora com especialistas em gestão pública e política e avaliações de ética”. Dos inscritos, 133 foram selecionados para serem capacitados e, posteriormente, embarcarem na vida pública, caso assim desejassem.

A formação está ancorada em quatro pilares, conforme a diretora: “Liderança e autoconhecimento, desafios do Brasil, marketing político e aprofundamento em áreas de interesse”. O programa traz especialistas de cada área para tratarem dos temas. De acordo com Izabella, as aulas são presenciais e online, nas quais são abordadas questões prioritárias para o país, dentre elas, saúde, educação, segurança, gestão fiscal e sustentabilidade.

Na época de seu lançamento, o projeto ficou conhecido como “Fundo Eleitoral do PIB”, por contar com o apoio de personalidades e grandes executivos como o apresentador Luciano Huck, o empresário Abílio Diniz e o ex-técnico de vôlei Bernardinho. Por meio de doações, o dinheiro é utilizado para financiar bolsas para os participantes durante o treinamento.

Descruzando os braços

Rafael Lousa: “A formação traz um aperfeiçoamento e preparo para exercer a função pública com eficiência”

Seis lideranças foram recrutadas em Goiás. Entre eles está o ex-presidente da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg), Rafael Lousa, que é pré-candidato a deputado estadual. O tucano participou da segunda parte do processo de seleção, quando os próprios organizadores entraram em contato e o escolheram em decorrência de seu perfil. Sobre o curso, Rafael afirma que “a formação traz um aperfeiçoamento e preparo para exercer a função pública com eficiência”. O empresário e sociólogo acredita que é possível fazer a diferença. “Eu já estava indignado com a situação política do Brasil, mas resolvi agir e não só reclamar da deterioração do sistema político”.

“A sociedade está se organizando para
mudar a política”, afirma José Frederico, que pretende disputar uma vaga no Congresso

O eleitor, segundo Rafael, está descrente porque a classe política precisa mudar. “É importante esse debate sobre a necessidade imposta pelo eleitor de mudança e renovação”, aponta. O pré-candidato atenta para urgência de uma relação mais estreita entre os políticos e o eleitorado. “O mandado colaborativo, no qual o eleitor possa participar ativamente, é um fator de diferença”, diz. Para ele, as ideias disseminadas pelo RenovaBR defendem uma gestão com menos custos aos cofres públicos, mais eficiente e aberta para ouvir a população.

Da mesma forma, Zé Fred cultivava essa vontade de agir. Formado em Engenharia e cofundador do movimento Acredito, também ligado a renovação política, ele pretende disputar uma vaga na Câmara como deputado federal. “Ao invés de só reclamar, a sociedade está se organizando para mudar a política, não quer esperar mais que a mudança venha sozinha do Congresso ou dos partidos, ela quer ser mesmo protagonista”, declara. O pré-candidato questiona as estruturas partidárias vigentes. “Eu vejo duas frentes de ações. Uma deve buscar reduzir a fragmentação partidária, pois são muitos partidos e isso dificulta a governabilidade. Por outro lado, os partidos devem ser mais democráticos”, defende.

Para a pré-candidata Desirée Peñalba, é fundamental uma capacitação como o RenovaBR para aqueles que estão em posições de poder. “A gente percebe que os políticos não são eficientes e não têm conhecimento sobre os reais problemas do Brasil”, diz. “Para entender de fato quais são esses problemas, foram ministradas aulas sobre reformas, saúde, educação, direito de minorias”. A democrata relata que um intenso programa de estudos é implementado, abordando também temas mais técnicos, como ações para uma boa liderança e aspectos da realização de uma campanha.

A administração dos gastos é, aliás, um dos pontos tratados durante a formação. Segundo o também pré-candidato a deputado estadual, Capitão Tarley, sua história com o RenovaBR começou antes mesmo do lançamento do projeto. Em 2016, quando se candidatou a vereador, o militar conta que realizou sua campanha somente com a participação de voluntários. Segun­do ele, na época, obteve cerca de 1.800 votos, com poucos recursos. Em sua nova empreitada na vida pública, a missão é engajar a população. “Que a gente possa articular novas lideranças, incentivar e conscientizar as pessoas de se posicionarem politicamente”, acrescenta.

Nem direita, nem esquerda, muito pelo contrário

Izabella Mattar, co-fundadora do RenovaBR: “Construir juntos, debater, olhar para o futuro, independentemente de legendas partidárias”

 

Regidos pela filosofia da renovação política, o RenovaBR, de acordo com Izabella Mattar objetiva colaborar com o desenvolvimento de novas lideranças de forma suprapartidária. “Estamos buscando um ponto de inflexão no nível de representação no Congresso Nacional, sabendo que a política não se resolve em ciclo”, esclarece.

Os participantes relatam que dividiram o processo de aprendizagem com pessoas adeptas de várias correntes ideológicas. “Do PSol ao PSDB”, revela Capitão Tarley. “O diferencial do movimento é a questão da unidade na diversidade, a unidade de propósito na diversidade de pessoas”, declara.

Apesar dessa heterogeneidade entre os integrantes, o cientista político Pedro Mundim pondera. Analisando as composições de grupos definidos como suprapartidaristas, em geral financiados pela classe empresária, ele explica que, do ponto de vista econômico, há uma inclinação para a defesa de políticas mais ortodoxas, como menos intervenção do estado e economia livre de mercado. O professor identifica uma tendência: “O que está se desenhando são movimentos que se posicionam na direita do espectro ideológico”.

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